Sim, também tem a ver com as luvas que calçamos nas mãos
Embora o nome “porta-luvas” seja amplamente reconhecido, a origem desse compartimento dentro dos veículos é bem mais interessante do que parece. Afinal, a função original desse compartimento não era armazenar luvas, como o nome sugere, mas sim armazenar uma variedade de outros itens essenciais.
Em uma época distante, bem antes dos automóveis modernos, as diligências eram os meios de transporte mais comuns. No contexto das diligências, existia um compartimento chamado jockey box, que era um caixote de ferramentas colocado sob o banco do condutor. Este caixote não apenas armazenava ferramentas essenciais para o funcionamento da carruagem, mas também protegia o motorista de sujeira, lama e até dos “desafios” naturais dos cavalos, como os dejetos que eram inevitáveis durante as viagens. Sim, a vida no século XIX tinha seus desafios!
Esse jockey box foi a inspiração para o compartimento que conhecemos hoje. Quando os primeiros automóveis começaram a ser fabricados no final do século XIX e início do século XX, as montadoras ainda estavam em busca de soluções para tornar os carros mais práticos e funcionais para seus motoristas. A Packard Motor Car Company, em particular, criou uma versão do jockey box em seus carros, que inicialmente servia para armazenar pacotes e itens pessoais como ferramentas e acessórios.
A transição do nome jockey box para porta-luvas começa a tomar forma com a popularização dos automóveis. Durante o início do século XX, a Packard se destacou ao criar um compartimento fechado no interior do carro, especificamente projetado para armazenar objetos pessoais, de maneira mais prática e acessível, ao alcance do motorista e dos passageiros.
Naquela época, os carros ainda não possuíam a capota rígida e, como os motoristas dirigiam em alta velocidade, as luvas de direção se tornaram um acessório essencial. Elas protegiam as mãos do frio intenso e dos ventos gelados, que eram particularmente problemáticos para os motoristas que dirigiam a céu aberto. Além disso, as luvas também ajudavam a melhorar o controle do volante, que na maioria dos carros antigos, não era tão preciso quanto os sistemas modernos.
Portanto, o porta-luvas não foi originalmente concebido para ser um simples compartimento qualquer. Ele teve uma função bem definida: ser o local de armazenamento das luvas de direção. Com o tempo, à medida que o design dos automóveis evoluía e as luvas de direção caíam em desuso, o porta-luvas foi sendo adaptado para armazenar uma infinidade de outros objetos, como papéis, documentos, moedas, e claro, até algumas quinquilharias.
Em boa parte dessa popularização, a figura de Dorothy Levitt, uma das pioneiras da direção feminina, teve um papel fundamental. Levitt foi uma automobilista britânica de destaque que quebrou recordes de velocidade no início do século XX e se tornou a primeira mulher a competir em corridas automobilísticas, no entanto, sua maior contribuição talvez tenha sido o manual que ela escreveu para motoristas, especialmente mulheres.
Em seu livro “The Woman and the Car”, Dorothy não apenas ensinava as mulheres a dirigirem, mas também listava itens essenciais para se carregar no carro, em um capítulo intitulado “Abasteça seu porta-luvas”. Ela recomendava, entre outros itens, um par de luvas limpas, um lenço, uma esponja de pó, grampos de cabelo, alfinetes comuns, um espelho de mão e até chocolates para momentos de estresse. Esses itens eram considerados fundamentais para garantir a segurança e o conforto das motoristas, tornando o porta-luvas um compartimento essencial do veículo.
Foi com o trabalho de Dorothy Levitt, uma verdadeira pioneira, que a expressão “porta-luvas” se consolidou na língua inglesa, e logo foi adotada internacionalmente. Até hoje, seu manual serve de referência para muitos motoristas que buscam um carro mais organizado e funcional.
Mariana Machado (Jornalismo)