A corrida mundial para desenvolver vacinas contra a covid-19, iniciada ainda em 2020, resultou não apenas no controle da pandemia, mas também em um legado duradouro para o Sistema Único de Saúde (SUS). No Brasil, a mobilização liderada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) acelerou a produção de imunizantes e fortaleceu a capacidade científica e industrial do país.
A diretora do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fiocruz (Bio-Manguinhos), Rosane Cuber, destaca que a rapidez no desenvolvimento das vacinas foi resultado de décadas de pesquisa acumulada. Segundo ela, as plataformas usadas, como RNA mensageiro e vetor viral, já eram conhecidas e apenas passaram por adaptações para combater o novo coronavírus.
Segundo a Agência Brasil, durante a pandemia, Bio-Manguinhos teve papel central ao trazer a vacina Oxford/AstraZeneca para o Brasil. As negociações começaram em agosto de 2020 e exigiram mudanças estruturais, jurídicas e operacionais no instituto. Todas as atividades foram direcionadas para um único objetivo: garantir o acesso rápido à vacina para a população brasileira.
A primeira remessa, com 2 milhões de doses prontas, chegou em janeiro de 2021, após a autorização emergencial da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Pouco depois, o instituto passou a realizar o envase, a rotulagem e o controle de qualidade no país, avançando na transferência de tecnologia. Em fevereiro de 2022, o Brasil passou a aplicar a vacina totalmente produzida em território nacional.
Ao todo, Bio-Manguinhos entregou cerca de 190 milhões de doses ao Programa Nacional de Imunizações. O imunizante foi o mais utilizado no país em 2021, ano inicial da vacinação, período em que especialistas estimam que aproximadamente 300 mil vidas foram preservadas.
Com o fim da pandemia, a produção da vacina foi interrompida, mas o legado permaneceu. A estrutura montada e o conhecimento adquirido abriram caminho para novas pesquisas e produtos estratégicos para o SUS. Entre eles, uma terapia avançada para tratar a atrofia muscular espinhal (AME), doença rara cujos medicamentos podem custar até R$ 7 milhões. A nova terapia utiliza a mesma plataforma de vetor viral da vacina contra a covid e já teve os estudos clínicos autorizados pela Anvisa.
Outra frente em andamento é o desenvolvimento de uma vacina nacional contra a covid baseada em RNA mensageiro. A tecnologia, que já vinha sendo estudada para tratamentos oncológicos, ganhou novo impulso após a experiência da pandemia. Para Rosane Cuber, produzir esse tipo de vacina no país reduz custos, garante soberania e prepara o Brasil para futuros surtos.
O desempenho durante a crise sanitária também projetou Bio-Manguinhos internacionalmente. O instituto foi escolhido como centro de produção pela Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias e como hub regional da Organização Mundial da Saúde para o desenvolvimento de produtos com tecnologia de RNA mensageiro.
Segundo a diretora, o reconhecimento reforça a missão do laboratório público. “Nosso foco não é o lucro, mas o benefício para a sociedade. Tudo o que produzimos tem como objetivo atender a população brasileira”, afirma.












