GeralPesquisa encontra 81 redes de pesca perdidas no litoral

Pesquisa encontra 81 redes de pesca perdidas no litoral

Uma pesquisa desenvolvida pela Unesc já identificou 81 fragmentos de redes de pesca nas regiões das fozes dos rios Araranguá e Mampituba, no Sul de Santa Catarina. O levantamento, realizado desde abril pela acadêmica de Ciências Biológicas Nicole de Moura, sob orientação do professor Rodrigo Machado, busca compreender a ocorrência de equipamentos de pesca perdidos e os riscos que eles podem representar para a fauna marinha, especialmente para o boto-de-Lahille, espécie ameaçada de extinção no Brasil.

O estudo integra o projeto “A ocorrência de redes de pesca perdidas em duas regiões de importância para a conservação do boto-de-Lahille”. Das redes localizadas durante cinco atividades de campo, 57 foram encontradas na Foz do Rio Araranguá e outras 24 na Foz do Rio Mampituba.

A pesquisa terá duração de um ano. Nesse período, estão previstas 12 saídas de campo em cada uma das duas áreas estudadas. A proposta é acompanhar diferentes épocas do ano e verificar se há mudanças na quantidade e nas características dos equipamentos encontrados, relacionando os resultados também aos períodos de ocupação dos botos.

Redes continuam oferecendo risco

Mesmo quando deixam de ser utilizadas pelos pescadores, as redes podem continuar atuando no ambiente. Presas em pedras, enterradas na areia ou deslocadas pela correnteza, elas podem capturar animais por conta própria, fenômeno conhecido como pesca fantasma.

Durante o levantamento, foram identificados diferentes tipos de equipamentos, incluindo redes de malha, arrasto e cerco. Em alguns casos, havia peixes e siris presos aos materiais.

Segundo o professor Rodrigo Machado, uma rede abandonada pode continuar funcionando como equipamento de pesca. O material permanece no ambiente e pode provocar o emaranhamento e a morte de diferentes organismos marinhos.

O impacto pode atingir peixes, tartarugas, aves, mamíferos marinhos e invertebrados. A preocupação é ainda maior nas áreas analisadas pela pesquisa por serem locais relacionados à presença do boto-de-Lahille.

Cada fragmento vira informação

As atividades de campo são realizadas em trechos de aproximadamente um quilômetro da faixa de areia. Ao encontrar uma rede, os pesquisadores registram inicialmente a localização do material por meio de coordenadas.

Na sequência, são avaliados aspectos como comprimento, tipo de petrecho e tamanho da malha. A equipe também verifica a existência de animais presos, lixo marinho e bioincrustação — processo de acúmulo de algas, microrganismos, plantas e animais sobre a estrutura.

Os materiais são fotografados e retirados do ambiente. Após a análise, as redes são encaminhadas para a lixeira mais próxima.

De acordo com Nicole, o tamanho da malha é uma das características importantes para avaliar o possível risco aos botos. A identificação do tipo de equipamento também ajuda os pesquisadores a relacionar os resíduos às atividades pesqueiras existentes na região.

Neste momento, o objetivo não é calcular quantos animais poderiam ser capturados pelas redes encontradas. O estudo concentra-se na identificação e quantificação dos principais tipos de petrechos presentes na faixa de areia.

Problema ultrapassa a praia

A pesca fantasma representa uma preocupação ambiental que vai além do momento em que uma rede é encontrada na areia. Dados da World Animal Protection indicam que aproximadamente 640 mil toneladas de equipamentos de pesca são deixadas nos oceanos anualmente.

A organização também estima que cerca de 69 mil animais marinhos sejam afetados todos os dias por redes de pesca descartadas. Desde 2012, o número de espécies atingidas pelo lixo marinho teria aumentado mais de 23%.

Outro problema está relacionado à própria composição das redes. A exposição contínua ao sol, à água salgada, às ondas e ao contato com rochas pode deteriorar os materiais sintéticos, contribuindo para a formação de fragmentos plásticos no ambiente.

Pesquisa pode ajudar na gestão das praias

Além de produzir conhecimento científico, a acadêmica Nicole de Moura pretende que os resultados possam ser utilizados por órgãos públicos. Natural de Torres, ela destaca a intenção de levar as informações para as prefeituras e contribuir com ações de limpeza, prevenção e conscientização.

O levantamento poderá indicar áreas com maior concentração de petrechos, períodos de maior ocorrência e tipos de equipamentos encontrados. Essas informações podem auxiliar na definição de estratégias para reduzir os impactos provocados pelos resíduos da atividade pesqueira.

A iniciativa também está ligada a ações de extensão da Unesc. Entre elas está o Projeto Marinho no Extremo Sul de Santa Catarina, que trabalha a conscientização sobre o lixo marinho, especialmente junto a filhos de pescadores.

Outro projeto aborda a cultura oceânica e busca ampliar a compreensão sobre a importância do mar para a sociedade, incluindo sua relação com as comunidades pesqueiras e as oportunidades econômicas associadas ao ambiente marinho.

Estudo amplia monitoramento do boto

A pesquisa sobre as redes perdidas também se conecta ao trabalho realizado pelo Projeto Botos do Araranguá, coordenado por Rodrigo Machado e vinculado ao curso de Ciências Biológicas e ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da Unesc.

Desenvolvido desde 2019, o projeto acompanha a população de botos no estuário do Rio Araranguá e na área costeira próxima. A iniciativa também busca preservar a memória das práticas tradicionais de pesca cooperativa entre pescadores e botos, uma relação histórica considerada única no Sul do Brasil.

O monitoramento sistemático da população completa dois anos em setembro. A partir dele, os pesquisadores vêm ampliando o conhecimento sobre a distribuição dos animais e a maneira como utilizam o território.

Agora, a investigação sobre a pesca fantasma acrescenta uma nova perspectiva ao trabalho. Além de identificar onde os botos estão, os pesquisadores passam a observar quais ameaças estão presentes nesses mesmos ambientes.

A integração entre os estudos permite analisar de forma mais ampla a relação entre conservação da biodiversidade, atividade pesqueira, comunidades tradicionais e ocupação do litoral.

Para a acadêmica, a pesquisa mostra que um material aparentemente pequeno pode representar uma questão ambiental relevante. Ao ser localizado, medido, fotografado, classificado e retirado, cada fragmento deixa de ser apenas um resíduo e passa a contribuir para o conhecimento científico sobre os impactos da pesca fantasma.

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