A assinatura do Tratado Mercosul–União Europeia, ocorrida em 17 de janeiro de 2026, marca o início de um novo ciclo econômico para o estado. De acordo com um levantamento inédito realizado pelo Observatório de Negócios do Sebrae/SC, o acordo prevê que mais de 90% das tarifas comerciais entre os blocos sejam eliminadas ou reduzidas gradualmente ao longo de até 15 anos. O cenário traz perspectivas de expansão para setores estratégicos catarinenses, ao mesmo tempo em que impõe a necessidade de modernização frente à concorrência internacional.
Atualmente, a balança comercial de Santa Catarina com o bloco europeu é deficitária. Dados de 2025 apontam que o estado importou US$ 4,64 bilhões e exportou US$ 1,35 bilhão, gerando um saldo negativo de US$ 3,29 bilhões. No entanto, o estudo do Sebrae/SC ressalta que o perfil das exportações catarinenses é sofisticado, focado em produtos industrializados de valor agregado, enquanto as importações priorizam tecnologia e máquinas essenciais para a modernização da indústria local.
Oportunidades na apicultura e agroindústria
O levantamento identifica nichos de alto potencial, começando pela apicultura. O estado possui cerca de 170 pequenos negócios neste setor. Com a vigência do tratado, a tarifa de importação do mel — hoje em 17,3% — será zerada dentro de uma cota que inicia em 7,5 mil toneladas anuais e chega a 45 mil toneladas no quinto ano. Considerando que a UE importou US$ 917,7 milhões em mel em 2024, há um mercado estimado em US$ 910,7 milhões a ser explorado pelos produtores catarinenses.
Na agroindústria, que engloba quase 20 mil pequenos negócios em segmentos como carnes, laticínios e massas, a liberalização ocorrerá via cotas tarifárias, reduzindo impostos a zero para diversos itens. O potencial de mercado europeu para esses produtos é estimado em US$ 109,2 bilhões, volume muito superior ao atual patamar de exportações brasileiras para o bloco.
Impulso para o setor industrial e automotivo
Os segmentos metalmecânico e automotivo também estão no radar das grandes oportunidades. Juntos, somam mais de 94 mil pequenas empresas e negócios integrados à cadeia em Santa Catarina. O acordo estipula a eliminação total (0%) das tarifas para uma vasta gama de produtos industriais, como autopeças e máquinas, com implementação imediata ou em até quatro anos.
O estudo destaca que, em 2024, a União Europeia importou somas expressivas nessas áreas: US$ 144,9 bilhões em produtos metalmecânicos e US$ 654,9 bilhões em veículos e autopeças.
Desafios da concorrência e qualificação
Apesar do otimismo com a abertura de mercados, o Observatório de Negócios do Sebrae/SC alerta para o “efeito rebote”: o aumento da concorrência no mercado interno. A entrada facilitada de produtos europeus, reconhecidos pela alta tecnologia e eficiência, deve pressionar as empresas locais, especialmente nos setores automotivo e metalmecânico.
O diretor superintendente do Sebrae/SC, Carlos Henrique Ramos Fonseca, avalia o cenário duplo de ganho e exigência.
“A previsão de tarifa zero para produtos industriais e de tarifa zero dentro das cotas para produtos agroindustriais representa um ganho competitivo relevante para Santa Catarina. Os dados mostram oportunidades bilionárias para os pequenos negócios, mas esse novo cenário também exige investimentos em qualificação produtiva, inovação, eficiência e adequação técnica para competir tanto no mercado europeu quanto no mercado interno”, explica Fonseca.
Preparação para o mercado internacional
Para auxiliar os empreendedores nesta transição, o Sebrae/SC intensificou sua atuação através do Programa de Qualificação para Exportação (PEIEX), em parceria com a ApexBrasil. A iniciativa oferece consultoria subsidiada para diagnóstico, adequação técnica e estratégias de acesso a mercados estrangeiros.
“O estudo conclui que o tratado representa uma oportunidade histórica para Santa Catarina, mas reforça que os ganhos dependem diretamente do preparo das empresas para atender às exigências técnicas, sanitárias e competitivas do mercado europeu”, complementa Carlos Henrique.












