SaúdeAvanço do sarampo nos EUA acende alerta no Brasil

Avanço do sarampo nos EUA acende alerta no Brasil

O avanço do sarampo nos Estados Unidos e em outros países das Américas acende um alerta para as autoridades sanitárias brasileiras em 2026. Com mais de 4,4 mil casos confirmados e três mortes nos EUA, o surto é associado, entre outros fatores, à queda na confiança nas vacinas e à disseminação de discursos antivacinação. No Brasil, foram registrados 61 casos neste ano, a maioria relacionada a infecções contraídas no exterior, o que reforça a necessidade de manter a cobertura vacinal elevada e evitar a reintrodução da doença.

Baixa vacinação preocupa autoridades

Segundo Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI), o cenário norte-americano é preocupante devido ao fortalecimento de discursos contrários à vacinação e a mudanças recentes nas recomendações de imunização. Entre os casos registrados nos Estados Unidos, 98% dos infectados não estavam completamente vacinados.

Gatti destaca que a vacina contra o sarampo é fundamental para impedir tanto a infecção quanto a transmissão do vírus. Para ele, a desinformação contribui diretamente para o aumento da circulação da doença e representa um risco para outros países do continente.

O diretor do PNI também alerta para as consequências do sarampo, que pode provocar mortes, abortos e complicações durante a gestação. Crianças e populações em situação de vulnerabilidade estão entre os grupos que exigem maior proteção.

Brasil mantém certificação de área livre

De acordo com a Agência Brasil, apesar dos casos registrados neste ano, o Brasil continua certificado como área livre da transmissão sustentada do sarampo. A manutenção desse reconhecimento, porém, depende da identificação rápida de novos casos e da continuidade das ações de vacinação e vigilância epidemiológica.

O país conquistou a certificação em 2016, mas perdeu o reconhecimento em 2019, após a reintrodução do vírus na região Norte. A doença se espalhou pelo território nacional, provocando um surto que chegou a 19 mil casos em São Paulo.

A certificação foi recuperada após a ampliação da cobertura vacinal e o fortalecimento do trabalho conjunto entre o Ministério da Saúde, os estados e os municípios.

Os índices de vacinação infantil com a tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, apresentaram melhora. Em 2023, a cobertura foi de 88% na primeira dose e 66% na segunda. Em 2024, os percentuais chegaram a 96% e 78%, respectivamente. Para 2026, os dados preliminares indicam 95% na primeira dose e 80% na segunda.

Mudanças nos EUA geram preocupação

Em agosto, o governo dos Estados Unidos reduziu de 17 para 11 o número de vacinas recomendadas para todas as crianças. Outra medida determinou a separação da vacina tríplice viral em três imunizantes distintos, administrados em momentos diferentes.

Para Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), as mudanças não têm respaldo científico e foram motivadas por questões políticas. Segundo ele, a proposta também enfrenta dificuldades práticas, pois as vacinas individuais contra sarampo, caxumba e rubéola deixaram de ser fabricadas há quase 20 anos.

Cunha ressalta que a divergência entre as recomendações governamentais e as orientações da Academia Americana de Pediatria pode confundir a população e comprometer a confiança nos programas de imunização.

Conforme a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), os casos de sarampo nas Américas já ultrapassam 56 mil, com pelo menos 80 mortes.

Vacinação protege toda a comunidade

A recomendação é manter a cobertura vacinal contra o sarampo em pelo menos 95%. Esse índice contribui para a chamada imunidade coletiva, que reduz a circulação do vírus e protege também pessoas que não podem receber a vacina, como determinados pacientes com problemas no sistema imunológico e bebês que ainda não atingiram a idade indicada para a imunização.

Quando há suspeita da doença, as equipes de saúde precisam investigar o caso, confirmar o diagnóstico, orientar o isolamento do paciente, monitorar seus contatos e intensificar a vacinação na comunidade.

Em São Paulo, onde se concentra a maior parte dos casos brasileiros, quase 4 milhões de doses extras foram aplicadas neste ano. No Amazonas, que registrou casos em setembro e outubro, o total chegou a 17 infecções, com quase 192 mil doses aplicadas.

Para Cunha, a redução dos casos ao longo dos anos pode criar uma falsa sensação de segurança e levar parte da população a abandonar a vacinação. Por isso, a imunização deve ser mantida mesmo quando a doença parece estar sob controle.

Desinformação também afeta o Brasil

Embora as mudanças adotadas pelo governo norte-americano não tenham sido reproduzidas oficialmente no Brasil, especialistas alertam que seus efeitos podem chegar à população por meio das redes sociais e de conteúdos que espalham informações falsas sobre vacinas.

Ao defender a separação da tríplice viral, Donald Trump afirmou que a medida reduziria os casos de autismo. Entretanto, estudos científicos já descartaram a associação entre vacinas e transtorno do espectro autista.

Outra mudança nos Estados Unidos envolve a vacina contra a hepatite B, tradicionalmente aplicada aos recém-nascidos. A recomendação universal foi substituída por critérios mais restritos, direcionados a bebês considerados de maior risco ou mediante decisão conjunta entre médicos e famílias.

Segundo Juarez Cunha, já existem relatos de pais que recusam a aplicação da vacina contra a hepatite B em maternidades particulares brasileiras.

O especialista alerta que a infecção pelo vírus da hepatite B tem consequências diferentes conforme a idade. Enquanto adultos infectados apresentam menor probabilidade de desenvolver uma infecção crônica, cerca de 90% dos bebês infectados podem evoluir para a forma crônica da doença, que aumenta o risco de cirrose e câncer de fígado.

Diante desse cenário, especialistas reforçam que a vacinação, a informação baseada em evidências científicas e a vigilância epidemiológica são fundamentais para proteger a população e evitar novos surtos de doenças preveníveis.

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