A Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu um alerta internacional sobre o risco iminente de uma nova epidemia global de chikungunya, motivada pelas mudanças climáticas e o aumento da urbanização. Segundo dados divulgados pelo Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC) e pela Organização Panamericana de Saúde (OPAS), o Brasil é atualmente o epicentro da doença nas Américas, concentrando 96% dos casos confirmados e 72% das mortes na região até o segundo semestre de 2025. O cenário exige atenção redobrada das autoridades sanitárias e da população para conter a proliferação do mosquito Aedes aegypti, principal transmissor do vírus em solo nacional.
A gravidade da situação foi reforçada pela médica Diana Rojas Alvarez, líder da equipe de arbovírus da OMS em Genebra. Durante anúncio oficial, a especialista destacou que a chikungunya não é uma doença amplamente conhecida, mas foi detectada e transmitida em 119 países em todo o mundo, colocando 5,6 bilhões de pessoas em risco. De acordo com o Painel de Monitoramento de Arboviroses do Ministério da Saúde, o Brasil notificou mais de 125 mil casos e 121 óbitos em 2025, com maior incidência nos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia.
Características e fatores de disseminação do vírus
A chikungunya é uma arbovirose endêmica no Brasil, apresentando picos de transmissão em períodos de altas temperaturas e pluviosidade. Conforme explica o gestor médico do Butantan, Eolo Morandi, em entrevista ao portal de notícias do Instituto, a adaptação do mosquito às áreas urbanas mantém o risco de surtos constante. “A chikungunya é uma doença endêmica no Brasil, com surtos mais intensos em períodos chuvosos e regiões de clima quente, e com o mosquito adaptado às áreas urbanas. Por isso, precisamos manter atenção constante, mesmo fora de grandes epidemias, porque o risco sempre existe”, pontua Morandi.
Além das condições locais, o aquecimento global tem permitido que vetores como o Aedes albopictus expandam sua presença para zonas anteriormente temperadas, como Europa e Estados Unidos. Enquanto no Brasil o Aedes aegypti é o principal responsável pela transmissão, no hemisfério norte a disseminação está mais atrelada ao albopictus.
Diferenças fundamentais entre dengue e chikungunya
Embora compartilhem o mesmo transmissor e sintomas iniciais como febre e dor de cabeça, a chikungunya possui uma assinatura clínica distinta, focada nas articulações. O próprio nome da doença, derivado da língua Kimakonde da Tanzânia, significa “aquilo que se curva”, em referência à postura dos pacientes devido às fortes dores.
Segundo Eolo Morandi, a principal diferença reside na intensidade e duração dessas dores. “A chikungunya causa dores articulares muito mais intensas e prolongadas. É comum o paciente sentir dor até nas grandes articulações e ficar bastante debilitado por semanas ou meses. Já a dengue costuma causar quadros mais graves e internações, mas seus sintomas duram menos tempo”, esclarece o médico à reportagem original do Butantan.
Riscos de cronificação e grupos vulneráveis
A maior preocupação médica reside na possibilidade de a doença tornar-se crônica. Pacientes com comorbidades como diabetes, hipertensão e obesidade possuem maior probabilidade de enfrentar dores articulares por períodos que variam de três a cinco anos. O diagnóstico pode ser realizado via exame de sangue PCR nos primeiros sete dias ou por teste de anticorpos após duas semanas da infecção.
Dados estatísticos indicam que as mulheres representam 60% dos casos no Brasil. O gestor médico do Butantan observa que, embora fatores hormonais possam influenciar a severidade, o comportamento social também impacta os números. “As mulheres costumam buscar mais o serviço de saúde, e os casos acabam sendo mais diagnosticados entre elas”, afirma Morandi. Além disso, recém-nascidos e idosos compõem os grupos de maior risco para complicações graves devido à fragilidade do sistema imunológico.
Avanços na imunização e medidas de prevenção
Uma perspectiva positiva para o controle da doença surgiu em abril de 2025, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a primeira vacina contra a chikungunya, desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica Valneva. O imunizante é visto como uma ferramenta estratégica para o controle epidemiológico em países endêmicos. Eolo Morandi ressalta que o objetivo no Brasil é conter surtos e reduzir o impacto da doença.
Contudo, a vacinação não elimina a necessidade de vigilância ambiental. “A vacina é uma ferramenta poderosa, mas não substitui os cuidados com o mosquito. O combate ao vetor é responsabilidade de todos”, reforça o especialista. As recomendações padrão continuam vigentes: eliminar recipientes com água parada, manter calhas limpas, utilizar repelentes e colaborar com os agentes de fiscalização sanitária para impedir que o Aedes aegypti complete seu ciclo reprodutivo.













