Pesquisadores da Fiocruz Minas e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) publicaram, no Journal of Medical Virology, um estudo que detalha o comportamento clínico e epidemiológico do surto de dengue ocorrido no estado em 2024. A investigação acompanhou 556 pacientes internados no Hospital Eduardo de Menezes, em Belo Horizonte, entre março e maio do ano passado, com o objetivo de entender a dinâmica da doença e a pressão sobre o sistema de saúde. Segundo a Agência Fiocruz de Notícias, os dados revelam que a maioria absoluta dos casos graves ocorreu em indivíduos que já haviam contraído o vírus anteriormente.
A análise profunda de 169 desses pacientes permitiu identificar que o cenário hospitalar era um reflexo direto da circulação viral na capital mineira e região metropolitana. O pesquisador Pedro Augusto Alves, um dos coordenadores do estudo, explica que havia uma necessidade urgente de compreender se a gravidade das internações estava ligada a algum fator específico. “Era uma preocupação nossa entender melhor esse quadro. E a gente viu que os pacientes do hospital espelhavam exatamente o que estava circulando em Belo Horizonte e na região metropolitana”, afirma.
Predominância do sorotipo 1 e histórico de infecção
Os resultados confirmaram que o vírus dengue tipo 1 (DENV-1) foi o principal responsável pela crise, presente em 86% das amostras analisadas. O tipo 2 respondeu por 12% dos casos, enquanto o tipo 3 teve presença residual. “Podia ser que a internação estivesse mais associada a um sorotipo específico, diferente do que estivesse predominante. Mas não. A proporção era praticamente a mesma: 86% de dengue 1, 12% de dengue 2 e alguns casos de dengue 3”, relata Pedro Alves.
Um dos dados mais alarmantes da pesquisa diz respeito à memória imunológica dos pacientes. A sorologia indicou que 92% dos hospitalizados possuíam anticorpos IgG, o que comprova contato prévio com o vírus. De acordo com o pesquisador, “o IgG alto mostra que a maioria absoluta já tinha tido dengue antes. Ou seja, estávamos lidando principalmente com segunda ou terceira infecção, não com primo-infecção”. Essa característica reforça a complexidade do tratamento em populações sucessivamente expostas a diferentes surtos.
Marcadores clínicos e monitoramento de plaquetas
O estudo identificou a trombocitopenia — a queda acentuada no número de plaquetas — como o principal marcador clínico para prever a gravidade dos casos. A equipe monitorou esse indicador durante o período de internação para auxiliar na diferenciação de pacientes com risco de choque ou extravasamento de plasma.
“A queda no número de plaquetas era um dos sinais mais considerados para definir pela necessidade de internação. Durante uns oito dias você via a queda, depois entre o oitavo e o décimo dia começava a melhorar. Mas tinha um grupo que não se recuperava e ficava internado por mais tempo”, explica Alves. Ele ressalta ainda que a circulação do sorotipo 2, embora menor, gera preocupação constante. “Na literatura existem relatos de dengue 2 relacionado a doença mais grave. O nosso trabalho reforça essa preocupação. Se esse sorotipo aumentar de circulação numa população já sensibilizada pelo dengue 1, pode haver mais casos graves”.
Apoio ao diagnóstico em tempos de crise
Além da coleta de dados estatísticos, a parceria entre as instituições teve um papel prático no atendimento hospitalar. Durante o auge da epidemia, a baixa sensibilidade dos testes rápidos em pacientes com muitos dias de sintomas gerava incerteza nas equipes médicas. “O hospital ficou numa situação meio no escuro. Entravam muitos pacientes com sintomatologia típica, mas sem confirmação”, recorda o pesquisador.
A aplicação de métodos moleculares (PCR) e sorologia avançada ajudou a confirmar diagnósticos que, inicialmente, apresentavam resultados negativos. “A primeira resposta nossa foi diagnóstico. Ajudar o hospital a entender se aquilo tudo era dengue mesmo. Essa junção das duas tecnologias foi fundamental. O hospital passou a entender melhor quem era o paciente que estava internando”, destaca Alves. O suporte tecnológico do Vigilab, laboratório da Fiocruz Minas com sistemas automatizados, foi essencial para o processamento rápido do grande volume de amostras.
Vigilância genômica e legado para o futuro
A pesquisa também impulsionou a vigilância genômica, permitindo o sequenciamento das linhagens virais para entender a evolução do vírus em nível local. Esses dados são integrados à Rede Genômica Fiocruz, fornecendo um banco de dados histórico para futuras comparações. “Não é só dengue 1, 2 ou 3. Dentro de cada sorotipo existem linhagens diferentes. Isso ajuda a entender como o vírus está evoluindo localmente e como se relaciona com o de outros estados”, explica o coordenador.
Para os pesquisadores, o estudo deixa um legado de integração entre ciência e assistência. “Foi uma força-tarefa gigantesca, mas mostrou que a gente consegue dar respostas rápidas quando existe estrutura e parceria”, avalia Pedro Alves. Em um cenário de incertezas e possível reemergência de outros sorotipos, o monitoramento contínuo torna-se a principal ferramenta para orientar as políticas de saúde pública.












