O curso de Psicologia da Unesc implementou o projeto “E agora, José?! Grupos reflexivos para homens autores de violência” no Presídio Regional de Criciúma para promover a responsabilização de detentos condenados pela Lei Maria da Penha. A iniciativa, que ocorre por meio de encontros semanais na unidade prisional, busca desnaturalizar padrões de agressividade e reduzir a reincidência criminal através de intervenções psicossociais estruturadas. Conforme informações divulgadas pela Unesc, o projeto utiliza a reflexão como ferramenta complementar à punição para romper ciclos de violência familiar na região.
Metodologia e objetivos da intervenção psicossocial
A proposta consiste em ciclos de dez a doze reuniões conduzidas por estagiários de Psicologia, sob supervisão docente e acompanhamento da equipe técnica do presídio. A participação dos detentos é voluntária e ocorre após um processo de triagem e acolhimento individual. Segundo a idealizadora do projeto, a professora Camila Maffioleti Cavaler, o foco está em criar espaços que questionem o controle e a agressividade associados à masculinidade.
“Não enfrentamos a violência apenas com o encarceramento. É preciso criar espaços de responsabilização e reflexão que desnaturalizem padrões de masculinidade associados ao controle e à agressividade”, afirma a docente. Ela reforça que o grupo não deve ser visto como um benefício, mas como um instrumento técnico. “O objetivo é promover a responsabilização pelos atos cometidos e discutir masculinidades, relações de gênero e prevenção da reincidência. Trabalhamos para que esses homens compreendam o impacto das violências e possam reconstruir trajetórias sem repetir ciclos”, acrescenta Camila Maffioleti Cavaler.
Impacto na segurança pública e formação acadêmica
O projeto fundamenta-se em diretrizes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e em legislações como a Lei nº 13.984/2020, que autoriza programas de recuperação para agressores. Para o coordenador Geral dos Estágios em Psicologia Social da Unesc, Zolnei Vargas Córdova, a ação qualifica tanto a política pública quanto a formação dos estudantes.
“Trata-se de uma ação objetiva e necessária no campo da Psicologia Social, pois promove responsabilização, reflexão e prevenção da reincidência, com impacto direto na proteção das famílias e da comunidade”, avalia o coordenador. A coordenadora do curso de Psicologia, Rosimeri Vieira, complementa que a experiência amplia a compreensão ética dos acadêmicos em contextos complexos. “Para os homens que cumprem pena por violência doméstica, o grupo oferece um espaço estruturado para assumir responsabilidades e desenvolver competências socioemocionais”, destaca.
Articulação com o Poder Judiciário e Ministério Público
A iniciativa conta com o apoio direto de autoridades locais que fiscalizam o sistema prisional. A juíza da Vara de Execuções Penais da Comarca de Criciúma, Débora Driwin Rieger, classifica a parceria entre a universidade e o presídio como exemplar. “O objetivo é promover uma mudança profunda no comportamento dos agressores, oferecendo reflexão, aprendizado e novas perspectivas. Projetos assim são fundamentais para a ressocialização e contribuem para uma sociedade com menos violência”, afirma a magistrada.
O promotor de Justiça Jadson Javel Teixeira, do Ministério Público de Santa Catarina, corrobora a necessidade de transformar valores para evitar o retorno ao crime. “Quando ficamos apenas nesse modelo fechado, cíclico, a reincidência se torna recorrente. Se a pessoa não muda o jeito de viver, as amizades, a forma de pensar, não consegue transformar valores e dificilmente deixará de praticar crimes”, observa o promotor.
Atuação técnica no ambiente prisional
Dentro da unidade, a equipe psicossocial identifica o grupo como uma oportunidade para que a palavra substitua o ato violento. A psicóloga do Presídio Regional de Criciúma, Bianca Defaveri Muliterno de Quadros, aponta que o ambiente carcerário frequentemente silencia sentimentos que acabam expressos via agressão. “O grupo reflexivo surge como um espaço diferenciado, no qual a palavra substitui o ato e a experiência pode ser olhada, nomeada e compreendida”, explica.
De acordo com a psicóloga Aline Cizewski Borb, também da unidade prisional, a conscientização emocional auxilia na ampliação do repertório de respostas a conflitos. A importância da medida é reforçada por Caroline Aquino Hubler, coordenadora no Departamento de Polícia Penal, que vê na ação um fortalecimento dos vínculos familiares. “Ele contribui com a sua missão ressocializadora ao promover a autorreflexão e a responsabilização do indivíduo, fortalecendo os vínculos familiares e conscientizando sobre o quão nociva é a violência”, conclui a coordenadora.












