Empresas catarinenses registraram uma alta de 17% nas exportações para a Argentina em 2025, alcançando o maior volume financeiro da última década no comércio bilateral. O desempenho, consolidado por dados da ApexBrasil e da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC), é reflexo de uma guinada liberal na política econômica de Buenos Aires, que reduziu barreiras burocráticas e atraiu setores como o moveleiro e o de máquinas para suprir a demanda de um mercado vizinho em processo de desregulamentação.
Guinada econômica amplia comércio bilateral
Apesar das divergências ideológicas entre as presidências dos dois países, o cenário comercial apresenta um crescimento sólido. Segundo dados da ApexBrasil, as exportações brasileiras para a Argentina avançaram 31% no último ano, consolidando o Brasil como o principal fornecedor do país vizinho. Em Santa Catarina, o crescimento de 17% reverte uma tendência de perda de espaço iniciada nos anos 1990, quando a ascensão da China e dos Estados Unidos, somada às crises cambiais e barreiras administrativas argentinas, afastaram os exportadores locais.
Conforme explica Maria Teresa Bustamante, presidente da Câmara de Comércio Exterior da FIESC, a mudança de postura do governo argentino foi determinante para este novo ciclo. “A gestão de Milei marca uma guinada liberal na política econômica. Seu foco é reduzir ao mínimo a intervenção do estado no comércio exterior”, afirma a executiva. Com a eliminação de licenças e a flexibilização de controles, o ambiente de negócios recuperou a previsibilidade, permitindo que o mercado voltasse a importar com maior fluidez.
Setor moveleiro lidera prospecção de negócios
A desregulamentação argentina ocorre em um momento estratégico para a indústria de Santa Catarina, que enfrenta tarifas impostas pelos Estados Unidos nos setores de madeira e móveis. Diante deste cenário, a FIESC organizou uma missão comercial a Buenos Aires em novembro, reunindo mais de 20 empresários. As rodadas de negócios geraram uma perspectiva de vendas imediata de US$ 4 milhões.
A indústria Interlink, de São Bento do Sul, exemplifica essa movimentação. De acordo com a gerente comercial Gisele Schneider, a empresa projeta faturar US$ 600 mil no mercado vizinho até o final de 2026. “Quase metade das importações de móveis da Argentina é de móveis de quarto, nosso principal nicho. Então, há um grande mercado no país”, avalia Schneider. A estratégia da multinacional francesa, que produz em solo catarinense, foca na diversificação para reduzir a dependência do mercado europeu, afetado por conflitos geopolíticos. “Não vamos brigar por preços. Queremos mostrar o diferencial do nosso produto”, reforça a gerente.
Vantagens competitivas e integração produtiva
Além do setor moveleiro, a indústria de bens de capital observa o mercado argentino com cautela e otimismo. A Potenza, fabricante de garras hidráulicas e gruas sediada em Lages, já mantém presença comercial no país e estuda ampliar sua atuação. Eliel Burigo Borges, CEO da empresa, analisa inclusive a possibilidade de instalar uma filial na Argentina para aproveitar acordos de investimento que o país vizinho costura com os Estados Unidos. “Contudo, fatores como investimentos, custos e logística precisam ser avaliados ante o preço final nos mercados de destino”, pondera Burigo.
A proximidade geográfica e os benefícios do Mercosul, como a tarifa zero, posicionam Santa Catarina à frente de concorrentes globais, como a China. Para Aline Martins Faraco, CEO da Faracomex, a logística e o suporte técnico são diferenciais decisivos. “Temos prazo de entrega muito menor, flexibilidade para customização, suporte técnico e pós-venda próximo do cliente”, afirma Faraco.
Perspectivas para o fortalecimento regional
Embora a virada do ano tenha apresentado uma leve retração devido à instabilidade cambial, a expectativa entre especialistas é de retomada gradual no segundo semestre. A visão de longo prazo defendida pela FIESC aponta para uma integração que ultrapassa a simples venda de produtos. “Não se trata apenas de vender produtos acabados, mas de construir alianças que envolvam investimento, tecnologia, capital humano e desenvolvimento conjunto”, conclui Maria Teresa Bustamante. A aprovação do acordo entre Mercosul e União Europeia pelos legislativos de ambos os países reforça a tendência de criação de cadeias produtivas regionais mais robustas.












