O Instituto Butantan iniciou, em janeiro de 2026, a aplicação da vacina Butantan-DV na população brasileira, após a aprovação do imunizante pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no final de 2025. A disponibilização da vacina no sistema de saúde ocorre em municípios como Nova Lima (MG), Maranguape (CE) e Botucatu (SP), visando combater os quatro sorotipos da doença com uma tecnologia nacional de dose única. O projeto é o resultado de uma cooperação científica de duas décadas entre o instituto brasileiro e o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), parte dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos, iniciada para suprir a necessidade de uma proteção eficaz contra as epidemias de dengue no país.
Histórico da cooperação internacional
A trajetória do imunizante começou em 2006, quando o então diretor do Instituto Butantan, Isaías Raw, buscou o NIH para compreender as tecnologias em desenvolvimento contra a dengue. Segundo informações do Portal do Butantan, a parceria foi oficializada em 2009, permitindo que o instituto brasileiro recebesse as cepas atenuadas dos quatro sorotipos do vírus (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4). Essa base tecnológica foi fundamentada em mais de dez anos de pesquisas prévias em solo norte-americano e 30 ensaios clínicos de fase 1.
Desenvolvimento tecnológico e desafios científicos
A criação de um imunizante tetravalente exige que a vacina proteja simultaneamente contra todas as variantes do vírus. De acordo com Anna Durbin, diretora do Centro de Pesquisa em Imunizações da Universidade Johns Hopkins, a imunidade parcial pode ser perigosa. “Se a vacina não induz imunidade contra os quatro vírus, nós podemos acabar predispondo a pessoa a ter uma dengue mais grave no futuro, caso ela seja infectada”, explicou a pesquisadora ao Portal do Butantan.
Para alcançar a formulação ideal, os cientistas precisaram customizar as mutações genéticas de cada sorotipo, garantindo que os vírus atenuados se replicassem o suficiente para gerar anticorpos sem causar a enfermidade. Stephen Whitehead, cientista sênior do NIAID, afirma que a equipe buscou as cepas mais seguras e imunogênicas, testando múltiplos candidatos antes de definir a composição final da Butantan-DV.
Eficácia e diferenciais da vacina
Diferente de outros imunizantes disponíveis no mercado, a Butantan-DV demonstrou eficácia superior a 90% contra casos graves de dengue em um ensaio clínico de fase 3, que envolveu 16 mil voluntários no Brasil. Um dos principais diferenciais destacados pelos especialistas é a aplicação em dose única. Anna Durbin ressalta que essa característica facilita a logística de imunização em massa, pois elimina a necessidade de o paciente retornar ao posto para doses de reforço, garantindo proteção imediata e maior alcance social.
Expansão do cronograma vacinal
Atualmente, a vacina é destinada ao público entre 12 e 59 anos, mas o Instituto Butantan já conduz estudos para ampliar essa faixa etária. Estão em andamento testes clínicos para a população de 60 a 79 anos em centros de pesquisa na região Sul do país. Além disso, os resultados da fase 3 indicaram segurança e eficácia para crianças de 2 a 6 anos, o que projeta uma futura expansão do público-alvo conforme novos dados forem consolidados.
Reconhecimento e impacto na saúde pública
Durante as celebrações de 125 anos do Instituto Butantan, os pesquisadores Stephen Whitehead e Anna Durbin foram homenageados pela contribuição ao projeto. O diretor do instituto, Esper Kallás, reforçou que a Butantan-DV é fruto de um esforço coletivo de longa data. A expectativa é que, aliada ao controle do mosquito Aedes aegypti, a vacinação reduza drasticamente as hospitalizações e o peso da doença no sistema de saúde brasileiro, servindo futuramente de modelo para outras áreas endêmicas no mundo.













