A Comissão de Agricultura e Desenvolvimento Rural da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) promoveu, na manhã desta quarta-feira (25), um debate técnico e político para buscar soluções para a crise na cadeia produtiva da cebola catarinense. A reunião, realizada na sede do Parlamento, em Florianópolis, reuniu produtores, prefeitos e órgãos técnicos com o objetivo de articular medidas para mitigar os prejuízos financeiros decorrentes da queda dos preços e do aumento da oferta no mercado nacional. De acordo com informações da Alesc, o setor enfrenta o segundo ano consecutivo de rentabilidade negativa, apesar da produtividade recorde registrada no estado.
Panorama da produção e defasagem econômica
Durante o encontro, dados apresentados pela analista socioeconômica da Epagri/Cepa, Lilian Bastian, confirmaram o protagonismo de Santa Catarina, que deve responder por aproximadamente 32% da produção nacional em 2025. A estimativa aponta para uma safra recorde superior a 602 mil toneladas, impulsionada pelas condições climáticas favoráveis e pela alta qualidade do bulbo. A região de Ituporanga e o Alto Vale do Itajaí seguem como os maiores polos, concentrando 75% da colheita estadual.
No entanto, o desempenho produtivo contrasta com a realidade financeira das propriedades rurais. Conforme o levantamento técnico, o custo de produção estimado é de R$ 1,40 por quilo, enquanto a média de preço praticada entre janeiro e fevereiro ficou em R$ 0,72 por quilo. Atualmente, cerca de 40% da safra já foi comercializada, e muitos agricultores retêm o restante da produção na expectativa de uma valorização que cubra os custos operacionais.
Impactos sociais e relatos do setor produtivo
A crise afeta diretamente o sustento de famílias que dependem exclusivamente da cultura. O produtor Arny Morh, com quatro décadas de experiência no setor, afirmou que os agricultores estão recebendo cerca de 50% do valor necessário para cobrir os custos. “Para cobrir os custos, precisaríamos vender a cebola entre R$ 1,40 e R$ 1,50, mas hoje estamos vendendo por cerca de R$ 1,00, com classificações que chegam a R$ 0,70 ou menos”, relatou Morh durante a audiência.
Prefeitos de municípios produtores também expressaram preocupação com a economia local. O prefeito de Lebon Régis, Marcelo Spautz, destacou que os prejuízos acumulados têm caráter sucessivo. Já o prefeito de Ituporanga, Geison Kurtz, alertou para o risco de êxodo rural, mencionando que a desistência de produtores tradicionais impacta a arrecadação municipal e o dinamismo do comércio e de serviços nas cidades da região.
Concorrência externa e armazenamento
A oferta interna elevada foi agravada pela importação de cebolas da Argentina, que também registrou uma supersafra no período. O deputado Mauro De Nadal (MDB) ressaltou que a ampliação da capacidade de armazenamento nas propriedades é uma estratégia necessária para reduzir a pressão sobre os preços durante os picos de colheita. Para o parlamentar, a prorrogação de dívidas é uma medida paliativa que não resolve os problemas estruturais da cadeia produtiva.
Encaminhamentos e medidas propostas
Como resultado do debate, o deputado José Milton Scheffer (PP) defendeu a ampliação do prazo de vencimento dos financiamentos rurais para até 180 dias após a colheita, além da revisão de acordos comerciais no âmbito do Mercosul. O deputado Mário Motta (PSD) reforçou a necessidade de agregação de valor ao produto e incentivo à diversificação produtiva como formas de garantir a segurança econômica no Alto Vale do Itajaí.
Ações junto ao Governo Federal
O presidente da Comissão de Agricultura, deputado Altair Silva (PP), anunciou que o colegiado elaborará um documento oficial com sugestões ao Banco Central e ao Ministério da Agricultura. O pleito central é a renegociação de dívidas com taxas de juros compatíveis com a realidade do produtor. Além disso, foi aprovada a realização de uma audiência pública itinerante na região produtora para aprofundar as discussões. No encerramento, o presidente da Epagri, Dirceu Leite, destacou os investimentos estaduais voltados à sucessão familiar, visando garantir que os jovens permaneçam no campo com segurança financeira e técnica.













