A amamentação está associada a uma redução aproximada de 11% no risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares entre as mulheres, segundo dados destacados pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) durante a Semana Mundial do Aleitamento Materno, realizada de 1º a 7 de agosto. A proteção estaria relacionada às mudanças metabólicas e hormonais provocadas pela produção de leite.
De acordo com a vice-presidente do Departamento de Cardiologia da Mulher da SBC, Alexandra Oliveira de Mesquita, os benefícios podem aumentar conforme o tempo de amamentação.
“As publicações giram em torno de 18 meses de amamentação. A mulher que amamenta por mais tempo tem também redução desses fatores de risco: 12% menos risco de acidente vascular cerebral (AVC), 14% menos risco de infarto. Viu-se que a amamentação traz essa proteção para a mulher”, afirmou.
A cardiologista ressalta, entretanto, que os resultados não significam que uma mulher que não amamentou necessariamente apresente maior risco de desenvolver essas doenças. Os percentuais representam associações identificadas em estudos populacionais.
Lactação auxilia na regulação do metabolismo
Durante a gestação, o organismo feminino passa por alterações hormonais e metabólicas, como aumento da resistência à insulina e elevação das concentrações de gorduras e colesterol no sangue, especialmente do LDL, conhecido como colesterol ruim.
Na fase de lactação, a produção de leite contribui para uma espécie de “reinicialização metabólica”. O processo utiliza glicose e reservas de gordura acumuladas durante a gravidez, melhora a sensibilidade à insulina e pode colaborar para a redução do risco de diabetes.
A amamentação também está relacionada à diminuição da pressão arterial e da frequência cardíaca materna. Com isso, o coração pode trabalhar com menor esforço para bombear o sangue.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a amamentação está associada a benefícios para a saúde da mulher, incluindo menor risco de diabetes tipo 2, câncer de mama, câncer de ovário e doenças cardíacas.
Hormônios contribuem para a proteção cardíaca
A lactação estimula a liberação de hormônios como ocitocina, prolactina, glicocorticoides, grelina e hormônio do crescimento. Essas substâncias participam de diferentes processos metabólicos e podem contribuir para a proteção do músculo cardíaco.
Entre elas, a ocitocina favorece a dilatação dos vasos sanguíneos e a circulação. O hormônio também é estudado por seu possível papel na proteção das células do coração em situações de redução da oferta de oxigênio.
“Tudo isso promove uma melhora da função endotelial, que é a função da parede interior das artérias. Também a liberação de ocitocina, nessa fase de lactação, faz uma vasodilatação, melhorando a circulação dessa mãe. Então, as alterações hormonais produzidas durante a gestação ficam meio que ‘resetadas’ na fase de lactação, que é o que vai causar realmente essa redução de riscos”, explicou Alexandra.
A médica acrescentou que a resistência à insulina, quando não controlada, pode contribuir para o desenvolvimento de diabetes.
Doenças cardiovasculares preocupam entre mulheres
Alexandra informou que as doenças cardiovasculares respondem por aproximadamente 33% da mortalidade feminina e superam os óbitos relacionados ao câncer de mama.
“Ainda se pensa que a maior causa de mortalidade feminina é câncer de mama, mas a doença cardiovascular mata sete vezes mais que o câncer de mama”, declarou.
Fatores como diabetes, hipertensão arterial e sedentarismo atingem homens e mulheres, mas podem apresentar efeitos específicos ou maior gravidade no público feminino.
Mulheres possuem fatores de risco específicos
Além dos fatores tradicionais, algumas condições relacionadas à saúde reprodutiva podem elevar o risco cardiovascular das mulheres.
Entre elas estão a primeira menstruação muito precoce ou tardia, menopausa antes dos 45 anos, endometriose, síndrome dos ovários policísticos e uso de anticoncepcionais orais.
Complicações durante a gravidez, como hipertensão gestacional, diabetes gestacional e nascimento de bebês com baixo peso, também podem indicar maior probabilidade de problemas cardiovasculares no futuro.
Semana Mundial reforça apoio à amamentação
A Semana Mundial do Aleitamento Materno é celebrada anualmente entre 1º e 7 de agosto e coordenada pela World Alliance for Breastfeeding Action (WABA). A mobilização busca ampliar a conscientização e incentivar ações de proteção, promoção e apoio à amamentação.
Em 2026, a campanha tem como tema “Amamentação para um começo de vida sustentável: fortaleça o que funciona”. A proposta é reconhecer e ampliar políticas, serviços e estratégias que já apresentam resultados positivos para mães, crianças e comunidades.
A pediatra Carmen Elias, idealizadora da Sala de Apoio ao Aleitamento Materno do Instituto de Educação Médica (Idomed), destaca que a prática pode contribuir para a proteção contra doenças, a recuperação no pós-parto, o desenvolvimento infantil e o fortalecimento do vínculo afetivo.
Outros benefícios apontados pela especialista incluem auxílio na formação dos dentes, adaptação da criança, prevenção de tumores, planejamento familiar, construção de hábitos alimentares saudáveis e redução das despesas com fórmulas e suplementos infantis.












