GeralSetembro Amarelo reforça escuta e prevenção

Setembro Amarelo reforça escuta e prevenção

O Setembro Amarelo reforça, ao longo deste mês, a importância da escuta, do acolhimento e da prevenção ao suicídio diante dos números registrados no Brasil e em Santa Catarina. A campanha busca ampliar o diálogo sobre saúde mental, reduzir o estigma e estimular a procura por ajuda antes que situações de sofrimento se agravem.

No Brasil, o Ministério da Saúde registrou 15.507 suicídios em 2021. Naquele ano, o suicídio foi a 27ª principal causa de morte no país e esteve entre as principais causas de mortalidade de adolescentes e adultos jovens.

A saúde mental também apresenta indicadores preocupantes. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 9,3% a 10% da população brasileira apresenta ansiedade, o equivalente a aproximadamente 18 milhões de pessoas. Já a depressão atinge cerca de 12,7% da população, colocando o Brasil entre os países com maior prevalência da doença na América Latina.

Cenário preocupa em Santa Catarina

Em Santa Catarina, os registros mostram crescimento dos casos. Conforme dados da Secretaria de Estado da Saúde, o número de suicídios passou de 769 em 2020 para 962 em 2023, aumento de aproximadamente 25%. Das vítimas registradas em 2023, 76% eram homens.

Entre crianças e adolescentes de 10 a 19 anos, foram contabilizados 41 óbitos naquele ano. Dados do Ministério Público também apontam mais de 8 mil tentativas de suicídio entre crianças e adolescentes no Estado. Em 2024, as notificações estaduais de tentativas chegaram a cerca de 19 mil registros.

Para o psicólogo Mateus Rodrigues, a prevenção não começa somente quando uma crise aparece. Ela está relacionada à capacidade de perceber alterações no comportamento, manter canais de diálogo e oferecer apoio a quem enfrenta sofrimento emocional.

Mudanças de comportamento podem indicar sofrimento

Nem sempre uma pessoa manifesta diretamente aquilo que está enfrentando. Por isso, alterações significativas no comportamento cotidiano merecem atenção.

Isolamento repentino, afastamento de familiares e amigos, perda de interesse por atividades anteriormente prazerosas e mudanças expressivas na rotina estão entre os sinais que devem ser observados.

“Quando ocorre um isolamento ou um afastamento que foi inesperado, é muito importante que a gente procure saber o que aconteceu, o porquê daquele afastamento”, explica Rodrigues.

O profissional também destaca situações como aumento do consumo de álcool ou outras substâncias, comportamentos de risco e atitudes que fogem do padrão habitual da pessoa.

Falas sobre morte não devem ser ignoradas

Em quadros de sofrimento mais intenso, podem surgir crises de ansiedade, choro frequente, desesperança e manifestações relacionadas à morte ou à falta de sentido na vida.

Essas situações não devem ser tratadas como exagero ou ignoradas. O sofrimento emocional é complexo e pode estar associado a diferentes fatores, como perdas, conflitos familiares, dificuldades pessoais, problemas financeiros e mudanças importantes.

A existência de vínculos sociais e de uma rede de apoio também influencia a maneira como cada pessoa enfrenta situações adversas.

Família, escola e trabalho têm papel na prevenção

O cuidado não deve ser responsabilidade apenas de quem está sofrendo. Família, amigos, escolas, empresas, comunidades e poder público podem contribuir para a construção de ambientes mais atentos à saúde mental.

Para Rodrigues, manter espaços de conversa e pessoas de referência é fundamental. Na escola, por exemplo, os estudantes precisam saber a quem recorrer quando enfrentarem dificuldades. No ambiente profissional, relações mais humanizadas também podem favorecer a identificação de situações de sofrimento.

O psicólogo chama atenção ainda para os impactos da redução das relações presenciais em uma sociedade cada vez mais conectada por celulares, computadores e redes sociais. Nesse cenário, fortalecer vínculos e desenvolver a capacidade de observar e ouvir o outro também são formas de prevenção.

Prevenção ganha espaço nas políticas públicas

Em Santa Catarina, a prevenção ao suicídio também passou a integrar de forma permanente as políticas públicas por meio de iniciativas legislativas.

Em 2018, foi sancionada a Lei nº 17.558, que instituiu o Setembro Amarelo no Estado, o Dia Estadual de Prevenção ao Suicídio, celebrado em 10 de setembro, e a Caminhada Anual pela Vida. Posteriormente, a legislação foi consolidada pela Lei nº 18.531/2022.

Entre os objetivos estão a realização de palestras e seminários, capacitação de profissionais de saúde para identificação de situações de risco, divulgação de informações, criação de canais de atendimento, monitoramento de casos e ampliação do debate sobre as causas relacionadas ao suicídio.

O Estado também possui, desde 2017, legislação voltada à Semana Estadual da Saúde Mental. Em 2025, uma nova lei ampliou os objetivos da iniciativa.

A Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) também desenvolve ações internas de conscientização. Em 2025, a campanha “O que me faz bem” foi direcionada aos servidores com foco na promoção da saúde mental e na valorização da vida.

SAMU registra milhares de atendimentos

A demanda pelos serviços de emergência também demonstra a dimensão do problema. Até o final de agosto de 2024, o SAMU/SC havia contabilizado 2.645 chamadas relacionadas a tentativas de suicídio, com equipes enviadas para 1.840 ocorrências.

Entre os atendimentos realizados por unidades de suporte avançado, 276 envolviam pessoas com idades entre 20 e 39 anos.

No relatório estadual de 2024, a taxa de mortalidade por suicídio em Santa Catarina foi de 14,43 por 100 mil habitantes, índice próximo à meta estabelecida para o período.

Os números reforçam que as ações de prevenção precisam continuar durante todo o ano, e não somente em setembro.

Pedir ajuda é uma forma de cuidado

O psicólogo Mateus Rodrigues destaca que não é preciso esperar o sofrimento chegar ao limite para buscar auxílio profissional.

Isolamento persistente, perda de motivação e prazer, conflitos recorrentes, uso abusivo de substâncias e episódios de automutilação são situações que precisam ser levadas a sério.

“Se eu não vejo mais sentido nas coisas que faço, talvez não faça mais sentido eu estar aqui”, alerta.

O acompanhamento pode incluir psicoterapia e, quando necessário, avaliação psiquiátrica. A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) também disponibiliza atendimento por meio de serviços como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e as Unidades Básicas de Saúde.

Em situações de emergência ou risco imediato, a orientação é procurar um serviço de urgência ou acionar o atendimento de emergência.

Escuta deve vir antes do julgamento

Quando familiares ou amigos percebem sinais de sofrimento, a forma de abordagem é importante. Demonstrar preocupação, ouvir sem julgamentos e oferecer companhia são atitudes que podem ajudar.

Comentários que minimizam a dor ou culpabilizam a pessoa não contribuem para o acolhimento. A conversa pode começar de maneira simples, mostrando que a mudança de comportamento foi percebida e que existe disposição para ouvir.

“O primeiro de tudo é trazer acolhimento, trazer escuta”, afirma Rodrigues.

Campanha reforça valorização da vida

O Setembro Amarelo amplia durante o mês uma discussão que precisa permanecer durante todo o ano. Atividade física, esporte, manifestações artísticas, convivência social e fortalecimento dos vínculos podem contribuir para o bem-estar emocional, especialmente quando aliados ao acompanhamento profissional quando necessário.

Em 2026, o mote da campanha é “Escutar é estar presente”, com foco na escuta acolhedora e na valorização da vida. O movimento nacional é promovido pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM).

O Dia Mundial de Prevenção do Suicídio é celebrado em 10 de setembro. A data busca estimular o diálogo sobre saúde mental, combater o estigma e fortalecer estratégias de prevenção.

Mais do que uma campanha de um mês, o Setembro Amarelo reforça a necessidade de uma sociedade capaz de perceber sinais de sofrimento, oferecer acolhimento e incentivar a busca por ajuda.

Relacionados

spot_img
spot_img
spot_img
spot_img

Últimas Notícias