Uma vacina experimental de mRNA desenvolvida pelas farmacêuticas Moderna e MSD, em combinação com o imunoterápico Keytruda, reduziu em 42% o risco de morte ou recorrência do melanoma, o tipo mais agressivo de câncer de pele. Os resultados são de um estudo clínico de fase 3, divulgados pelas empresas na quinta-feira (22), e indicam avanços no tratamento personalizado da doença.
Tratamento apresenta resultados promissores
Batizada de intismeran autogene, a vacina é produzida de acordo com as características genéticas do tumor de cada paciente. Diferentemente dos imunizantes utilizados para prevenir doenças infecciosas, ela tem como objetivo tratar um câncer já diagnosticado, estimulando o sistema imunológico a reconhecer e combater as células tumorais.
Os dados da pesquisa mostram que, dois anos após o tratamento, 82,2% dos pacientes que receberam a vacina combinada com Keytruda permaneciam sem sinais da doença. Entre aqueles que utilizaram apenas o imunoterápico, considerado uma das terapias padrão para melanoma, o índice foi de 70%.
A associação dos tratamentos também reduziu em 38% o risco de metástase, quando o câncer se espalha para outros órgãos.
O oncologista Hussein Tawbi, especialista em melanoma e investigador do estudo no MD Anderson Cancer Center, da Universidade do Texas, destacou a relevância dos resultados e afirmou que a significância estatística observada não ocorreu por acaso.
Em agosto, as empresas já haviam informado que o estudo havia alcançado seus objetivos, mas os números detalhados foram divulgados posteriormente.
Como funciona a vacina personalizada
O desenvolvimento do imunizante começa com uma amostra do tumor removido durante a cirurgia. O material genético é analisado para identificar mutações específicas do câncer daquele paciente.
A partir dessas informações, é produzida uma molécula de RNA mensageiro (mRNA), com instruções relacionadas a até 34 alvos identificados no tumor. Após a aplicação, as células do organismo passam a produzir essas estruturas, permitindo que o sistema imunológico aprenda a reconhecer e atacar as células cancerosas que apresentam as mesmas características.
O Keytruda, por sua vez, atua bloqueando um mecanismo utilizado pelos tumores para escapar das defesas do organismo. O medicamento interfere na ação de proteínas que limitam a resposta imunológica, favorecendo o combate às células cancerosas.
Assim, os tratamentos exercem funções complementares: enquanto a vacina ajuda o sistema imunológico a identificar o tumor, o imunoterápico amplia a capacidade de reação das células de defesa.
Próximos passos para aprovação
Com os resultados da fase 3, etapa final dos testes clínicos antes de um possível pedido de aprovação, Moderna e MSD se preparam para solicitar autorização de comercialização nos Estados Unidos.
O presidente-executivo da Moderna, Stéphane Bancel, afirmou que a expectativa é que o tratamento chegue ao mercado em 2027.
Até a publicação das informações que serviram de base para esta reportagem, não havia confirmação sobre um eventual pedido de aprovação à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para disponibilizar a vacina no Brasil.
Os resultados completos do estudo estão previstos para apresentação no congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO), em Madri, neste sábado (24).
Apesar dos resultados promissores, a vacina ainda depende das etapas regulatórias necessárias para que possa ser disponibilizada comercialmente.













