Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), em Criciúma, investiga a saúde mental de mulheres no período pós-parto, com foco em sintomas de depressão, ansiedade e estresse, além de fatores como sono, apoio social e qualidade de vida. Iniciado em julho de 2025, o estudo envolve seis Unidades Básicas de Saúde (UBSs) do município e seguirá com a coleta de dados até julho de 2027, buscando ampliar a compreensão sobre as necessidades das mães após o nascimento dos filhos.
O trabalho é realizado pelo Laboratório de Psiquiatria Translacional da Unesc e integra uma investigação mais ampla sobre a saúde mental materna. Cerca de 60 mulheres já participam do levantamento, que inclui entrevistas, questionários e coleta de sangue para análises futuras.
Estudo investiga sintomas e condições de vida das mães
A pesquisa local está relacionada ao Nascer no Brasil II, levantamento nacional coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que coletou dados entre 2021 e 2025 em 395 maternidades brasileiras. O estudo nacional investiga sintomas de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático em mulheres no período pós-parto.
A iniciativa dá continuidade à primeira edição do levantamento, realizada entre 2011 e 2012, que identificou cerca de 26% de casos prováveis de depressão entre as mulheres avaliadas. Outro estudo, baseado na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 e publicado em 2025, encontrou sintomas depressivos em 34,1% das 986 mulheres analisadas no período pós-parto. Os resultados não são diretamente comparáveis, pois as pesquisas utilizaram populações e instrumentos de avaliação diferentes.
Em Criciúma, podem participar mulheres com mais de 18 anos que sejam incluídas no estudo até 30 dias após o parto. Durante as entrevistas, são abordados aspectos relacionados à gestação, ao nascimento do bebê, às condições de saúde da criança, ao suporte emocional, à qualidade de vida e à rotina familiar.
Entre os instrumentos utilizados está a Escala de Depressão Pós-Natal de Edinburgh (EPDS), que auxilia na identificação de possíveis sintomas depressivos.
A professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Unesc, Gislaine Zilli Réus, ressalta que a escala não estabelece um diagnóstico clínico, mas funciona como ferramenta de triagem. A partir dos resultados, as participantes são separadas em grupos com triagem positiva ou negativa para sintomas de depressão pós-parto.
Dados preliminares apontam diferenças entre os grupos
Embora a investigação ainda esteja em andamento, os primeiros resultados chamam a atenção da equipe. Aproximadamente metade das mulheres entrevistadas até o momento apresentou triagem positiva para sintomas de depressão pós-parto.
“ A gente não esperava encontrar tantas mulheres com triagem positiva e tantas alterações”, relata Gislaine.
Entre as diferenças observadas estão a percepção de menor apoio social, dificuldades relacionadas à amamentação e menor duração do aleitamento materno entre as participantes com triagem positiva.
A equipe também identificou, nesse grupo, maior intensidade de sintomas de depressão e ansiedade, alterações nos ritmos biológicos, menos horas de sono, pior qualidade do descanso e diferenças no funcionamento psicossocial.
Outro aspecto analisado envolve experiências vividas na infância. As participantes com triagem positiva relataram com maior frequência situações relacionadas a traumas, incluindo negligência emocional. Os dados também apontaram uma relação entre essas experiências e a percepção de apoio social na vida adulta.
Os resultados são preliminares e poderão ser aprofundados à medida que novas participantes forem incluídas e as análises avançarem.
Saúde mental materna ainda é pouco percebida
Para Gislaine, um dos desafios é ampliar a atenção à mulher durante o puerpério, período em que os cuidados costumam se concentrar no recém-nascido.
“Todo mundo olha para o bebê. E a gente esquece da mãe”, afirma a pesquisadora.
Além das mudanças físicas e hormonais, o pós-parto envolve adaptações emocionais e sociais. A mulher precisa reorganizar a rotina, lidar com a privação de sono e aprender a atender às necessidades do bebê, enquanto também enfrenta suas próprias emoções.
Integrante da equipe, Larissa Cristine Pereira destaca que o sofrimento psicológico materno nem sempre é percebido, especialmente diante da expectativa social de que a chegada de uma criança seja acompanhada apenas por sentimentos positivos.
“A gente tem uma concepção muito errada de que o pós-parto e a vinda de um bebê só trazem coisas felizes e que infelizmente não é a realidade de todas as mulheres”, observa.
Segundo ela, a experiência reforça a importância de abordar a saúde mental de forma ativa durante os atendimentos, permitindo que as mulheres expressem suas dificuldades e recebam orientação adequada.
Participação na pesquisa trouxe acolhimento
A experiência de Andréa Cerqueira de Melo, mãe de três filhos, também integra o estudo. Ela participou da pesquisa após o nascimento de Alice, atualmente com 11 meses.
Apesar de já ter passado por outras gestações, Andréa descreve a chegada da filha como um recomeço. A gravidez, que aconteceu de forma inesperada, foi marcada por expectativa e alegria, mas também por um momento de luto: quatro dias após o nascimento da bebê, ela perdeu o pai.
Diante de sentimentos simultâneos, Andréa buscou compreender melhor o que estava vivendo e como poderia lidar com a alegria da maternidade e a dor da perda.
“Eu queria entender qual emoção estava me movimentando mais e se eu conseguiria administrar as duas coisas, a alegria e o luto”, relata.
Ela também destaca a necessidade de receber atenção durante o período, para além dos cuidados direcionados à criança.
“Você quer ser vista com seu bebê, quer que as pessoas olhem para ele, elogiem, mas você também quer que vejam você. Eu precisava de atenção”, afirma.
Para Andréa, a participação teve um significado que foi além da contribuição científica. “Acabou sendo uma contribuição dupla. Não só da minha parte para a pesquisa, mas também da pesquisa para mim”, conta.
Pesquisa contribui para a formação médica
O estudo começou como um Trabalho de Conclusão de Curso desenvolvido por Larissa e uma colega e, posteriormente, foi ampliado no Laboratório de Psiquiatria Translacional da Unesc.
Atualmente, Larissa participa do contato com as unidades de saúde, do recrutamento das mulheres, das entrevistas e da coleta de sangue. A vivência também contribui para sua formação profissional, ao reforçar a importância de incluir questões relacionadas à saúde mental nas consultas médicas.
O médico João Vítor Santana Cecchetto Mendes, que atua em uma das unidades envolvidas na investigação, também acompanha a realidade das mulheres atendidas.
Para ele, as novas responsabilidades podem fazer com que muitas mães deixem suas próprias necessidades em segundo plano, dificultando a percepção do sofrimento e o acesso ao diagnóstico.
A equipe destaca que familiares, companheiros e amigos podem exercer papel importante durante o puerpério, mas reconhece que nem todas as mulheres dispõem de uma rede de apoio adequada.
Próximas etapas incluem análises biológicas
Além das entrevistas e dos questionários, a pesquisa prevê análises de amostras de sangue das participantes. O material é inicialmente processado nos laboratórios da Unesc e armazenado para investigações bioquímicas futuras, que poderão ajudar a compreender fatores biológicos relacionados às alterações psicológicas observadas.
A expectativa é que os resultados contribuam não apenas para a produção científica, mas também para a melhoria do atendimento nas unidades de saúde e para a elaboração de ações voltadas à saúde materna.
Gislaine destaca a importância de compartilhar as descobertas com a comunidade e os serviços públicos. A intenção é apresentar os resultados às unidades participantes e ampliar o conhecimento sobre as necessidades das mulheres no período pós-parto.
A pesquisa reforça a importância de uma abordagem integral da maternidade, que considere tanto a saúde do bebê quanto o bem-estar físico e emocional da mulher.












