A expectativa pelo resultado, os chamados “quase acertos” e a possibilidade de ganhos imprevisíveis ativam mecanismos cerebrais relacionados à motivação e ao aprendizado e podem contribuir para a manutenção do comportamento de apostar. Em pessoas com transtorno do jogo, esse impulso pode persistir mesmo diante de perdas financeiras e consequências emocionais.
O tema ganhou espaço no debate público após o governo federal anunciar, nesta sexta-feira (25), novas medidas para endurecer as regras relacionadas às bets no Brasil. Entre as propostas está a proibição de apostas e jogos virtuais online no país, além da previsão de um projeto de lei com penas para quem explorar, operar ou divulgar essas plataformas.
A discussão também envolve os impactos das apostas na saúde pública, especialmente em relação à ludopatia, condição caracterizada pela dificuldade de controlar o impulso de jogar. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o transtorno, que possui classificações específicas na CID.
O que acontece no cérebro
Pesquisas indicam que o processo de dependência não está relacionado apenas à sensação de ganhar. Em pessoas com transtorno do jogo, o cérebro pode apresentar uma resposta mais intensa ainda antes de o resultado ser conhecido, quando existe apenas a possibilidade de uma recompensa.
Um estudo publicado em 2026 na revista Biological Psychiatry: Cognitive Neuroscience and Neuroimaging identificou uma reação cerebral mais intensa à expectativa de ganhos entre pessoas com transtorno do jogo. A intensidade dessa resposta também esteve relacionada à gravidade dos sintomas.
A pesquisa utilizou eletroencefalograma (EEG) em 26 pessoas com transtorno do jogo e 54 voluntários sem diagnóstico psiquiátrico durante uma atividade que simulava uma máquina caça-níquel. A principal diferença entre os grupos apareceu justamente no período anterior ao resultado.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que esse tipo de exame não serve para diagnosticar individualmente o transtorno. O resultado ajuda a compreender mecanismos envolvidos no comportamento de dependência.
Dopamina participa da motivação
A dopamina, frequentemente associada ao prazer, também está relacionada à motivação, ao aprendizado e à identificação de sinais que indicam uma possível recompensa.
Segundo especialistas citados na pesquisa, a expectativa de uma vitória pode ser suficiente para ativar circuitos cerebrais relacionados ao sistema de recompensa. Entre essas estruturas está o estriado ventral, que inclui o núcleo accumbens e participa da antecipação de recompensas.
Outra região envolvida é a ínsula, associada à percepção de risco e incerteza e às sensações físicas relacionadas à tensão e à excitação.
O cérebro também compara aquilo que esperava receber com o resultado efetivamente obtido. Esse mecanismo, conhecido como erro de previsão de recompensa, ajuda a explicar por que uma vitória inesperada pode produzir uma resposta mais intensa do que um resultado já previsto.
A diferença entre gostar e querer
Os especialistas também distinguem o prazer proporcionado por uma vitória do impulso de buscar novamente a recompensa.
No transtorno do jogo, o desejo de apostar pode permanecer mesmo quando a atividade deixa de proporcionar prazer e passa a provocar perdas financeiras, conflitos e sofrimento emocional.
A imprevisibilidade dos resultados contribui para esse processo. Uma vitória pequena depois de várias derrotas pode reforçar a expectativa de que um novo ganho está próximo, mantendo a pessoa envolvida com a atividade.
Por que o “quase ganho” chama atenção
Embora matematicamente um quase acerto represente uma derrota, o cérebro pode processá-lo de maneira diferente. Situações em que o resultado fica muito próximo de uma vitória podem ativar parcialmente circuitos relacionados à recompensa e estimular a continuidade das apostas.
Esse mecanismo pode fazer com que a pessoa interprete o resultado como se estivesse próxima de conseguir vencer, mesmo sem qualquer alteração real nas probabilidades da próxima rodada.
Outro comportamento associado ao transtorno é a chamada perseguição das perdas. Depois de perder dinheiro, o jogador tenta recuperar o valor apostando novamente, aumentando a exposição ao risco.
A velocidade das apostas online
As plataformas digitais acrescentam outro elemento: a rapidez entre uma aposta e outra. Pelo celular, o usuário pode apostar, acompanhar o resultado e iniciar uma nova rodada em poucos segundos.
Notificações, bônus, animações, sons, placares em tempo real e alterações nas probabilidades também podem funcionar como estímulos para novas apostas. Com a repetição, até mesmo o contato com o aplicativo ou o início de uma partida pode despertar o desejo de jogar.
Dados de uma revisão sistemática publicada na revista The Lancet Public Health apontaram que 8,7% dos adultos no mundo apresentavam algum nível de jogo de risco, enquanto 1,41% se enquadravam no jogo problemático. Entre usuários de cassinos online e máquinas caça-níqueis virtuais, a estimativa de jogo problemático chegou a 15,8%.
Os números, entretanto, dizem respeito aos grupos analisados e não significam que essa parcela da população em geral desenvolva o transtorno. A maioria das pessoas que aposta não apresenta dependência.
Quando o comportamento se torna um problema
Um dos principais sinais de alerta é a perda de controle sobre o comportamento. Entre os indicativos estão tentar recuperar perdas por meio de novas apostas, esconder gastos, pedir dinheiro emprestado, deixar compromissos de lado ou tentar parar repetidamente sem conseguir.
O transtorno do jogo é reconhecido nas principais classificações psiquiátricas como uma condição relacionada aos comportamentos aditivos.
O tratamento pode envolver psicoterapia, avaliação de outros problemas de saúde mental, estratégias para reduzir o acesso impulsivo ao dinheiro e participação de familiares ou pessoas de confiança.
No Brasil, os atendimentos do SUS relacionados a transtornos associados ao jogo também aumentaram. Foram registrados 2.262 atendimentos em 2023 e 3.490 em 2024, crescimento de 54%, segundo dados apresentados pelo diretor do Departamento de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati. Entre janeiro e junho de 2025, foram contabilizados outros 1.951 atendimentos.
Fonte: G1












