As ações do Grupo Casas Bahia (BHIA3) acumulam uma queda de 99,86% desde o pico histórico registrado em 2020 e chegaram a R$ 0,46 na manhã desta segunda-feira (17), após a empresa anunciar pedido de recuperação judicial em São Paulo. O movimento ocorre em meio ao agravamento da situação financeira da varejista, que busca renegociar aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas e preservar suas operações.
No auge da cotação, em 2020, o valor ajustado das ações chegou a cerca de R$ 489,08. Na sexta-feira (14), último pregão antes do anúncio do pedido de recuperação judicial, os papéis encerraram o dia em R$ 0,66. Por volta das 10h41 desta segunda, a cotação estava em R$ 0,46, uma baixa de aproximadamente 30%.
Crise financeira
A queda das ações ocorreu de forma gradual e acompanhou a deterioração dos resultados da companhia. Entre os fatores apontados pela empresa estão os investimentos em tecnologia e logística para ampliar a presença no comércio eletrônico, os efeitos da pandemia sobre as lojas físicas, a elevação dos juros a partir de 2021, o encarecimento das dívidas, a redução do consumo e o aumento da inadimplência.
Segundo a Casas Bahia, o cenário de juros altos teve impacto significativo sobre o negócio, que depende de financiamento para manter estoques e oferecer crédito aos consumidores. Com o aumento das despesas financeiras, uma parcela maior dos recursos gerados pela operação passou a ser utilizada para o pagamento de dívidas e encargos.
Reestruturação não conteve dificuldades
Em 2023, a companhia iniciou um processo de transformação com medidas para reduzir despesas, incluindo o fechamento de 55 lojas, a redução de aproximadamente 8.600 postos de trabalho, cortes nos investimentos e diminuição dos estoques.
Em 2024, a empresa também renegociou parte de seus débitos por meio de uma recuperação extrajudicial. Apesar da medida, a Casas Bahia afirmou que as condições econômicas continuaram pressionando suas finanças.
No pedido de recuperação judicial, a companhia informou ainda que, em agosto de 2026, aprofundou o processo de reestruturação, com a demissão de cerca de 3 mil funcionários e o fechamento de quase 300 lojas. Atualmente, o grupo afirma ter mais de 20 mil empregados.
Ação passa a ser considerada penny stock
Com o preço abaixo de R$ 1, os papéis da Casas Bahia passaram a ser classificados como penny stock, expressão utilizada no mercado para ações negociadas por valores inferiores a R$ 1.
Esse tipo de ativo costuma apresentar elevada volatilidade e pode estar associado a empresas que atravessam dificuldades financeiras. O preço reduzido, entretanto, não significa necessariamente que uma ação esteja barata.
Desde o pedido de recuperação extrajudicial, em abril de 2024, quando os papéis eram negociados a R$ 7,30, a desvalorização chega a 87,9%.
A companhia estreou na Bolsa em dezembro de 2013, ainda com o nome Via Varejo. A operação movimentou aproximadamente R$ 2,8 bilhões. Posteriormente, a empresa passou a se chamar Via S.A. e, depois, Grupo Casas Bahia, mantendo o ticker BHIA3.
Pedido de recuperação judicial
O Grupo Casas Bahia anunciou na noite de domingo (16) o protocolo de um pedido de recuperação judicial no Foro Central Cível de São Paulo. A solicitação envolve a companhia e outras nove empresas do grupo.
O objetivo é reorganizar as finanças, renegociar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas e manter as atividades. O pedido ainda precisa ser ratificado pelos acionistas em Assembleia Geral Extraordinária.
A empresa atribui a deterioração financeira principalmente aos juros elevados, à restrição de crédito e à redução do consumo. Segundo a companhia, foram realizadas tentativas de captação de recursos ao longo dos últimos 18 meses, incluindo negociações com investidores do Brasil, dos Estados Unidos e da Europa.
Uma possível oferta de ações não avançou após a desistência do investidor que seria o principal participante da operação. Alternativas como empréstimos-ponte também não foram concretizadas.
Prejuízo de R$ 10,1 bilhões
A situação financeira também aparece nos resultados divulgados pela empresa. No segundo trimestre de 2026, a Casas Bahia registrou prejuízo contábil de R$ 10,1 bilhões. Desse total, R$ 9,1 bilhões correspondem a ajustes contábeis sem impacto imediato no caixa.
Apesar do resultado negativo, a receita líquida cresceu 1,6%, alcançando R$ 6,98 bilhões. As vendas pela internet avançaram 15,3%, para R$ 2,8 bilhões.
A companhia também comunicou mudanças na administração. Fábio Spina deixou a vice-presidência Jurídica e Tributária e foi substituído por Sírley Lima. Os conselheiros Jackson Schneider e Rogério Calderón deixaram o Conselho de Administração, embora Calderón continue à frente de comitês internos.
















