O Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e a Equipe de Apoio Rápido em Saúde Pública do Reino Unido (UK-PHRST) realizam uma investigação conjunta sobre a presença de vírus em roedores da Mata Atlântica, no Rio de Janeiro, iniciada em dezembro de 2025. A cooperação técnica ocorre no município de Rio Claro e em unidades laboratoriais do Instituto para identificar patógenos conhecidos, como hantavírus e arenavírus, além de novos microrganismos. O projeto busca preparar o sistema de saúde para possíveis emergências sanitárias exacerbadas por mudanças climáticas e ambientais.
Segundo informações da Fiocruz, a iniciativa envolve a Agência de Segurança em Saúde britânica e a Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, com financiamento do governo do Reino Unido. A colaboração foca no monitoramento de animais que atuam como reservatórios silvestres de doenças graves, como a hantavirose e a febre hemorrágica brasileira.
Capacitação em genômica e novas tecnologias
Como parte das atividades de cooperação, especialistas britânicos ministraram, entre os dias 26 e 30 de janeiro, um treinamento no Rio de Janeiro voltado para metodologias de sequenciamento genético. A capacitação visou ampliar a capacidade de detecção de microrganismos em amostras coletadas em campo.
De acordo com Daniel Carter, especialista em genômica da UK-PHRST que conduziu o treinamento, o uso dessas novas ferramentas é fundamental para a vigilância. “O treinamento em genômica garante que a equipe poderá utilizar novos métodos para buscar vírus emergentes em roedores. Esse trabalho é importante porque nos permite entender quais vírus estão circulando em animais que podem representar risco para os seres humanos”, afirmou Carter.
O uso da metagenômica na detecção de patógenos
A técnica central utilizada no projeto é a metagenômica, que permite o sequenciamento total do material genético presente em uma amostra. Diferente dos testes tradicionais, que buscam vírus específicos, essa metodologia identifica todos os microrganismos existentes, facilitando o descobrimento de agentes desconhecidos.
O pesquisador Jorlan Fernandes, do Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses do IOC, explicou que a preparação é essencial diante do cenário ambiental atual. “A parceria ajuda o nosso laboratório a se preparar para prováveis e possíveis emergências associadas a vírus transmitidos por roedores. Essa preparação é ainda mais necessária porque estamos vivendo mudanças climáticas e ambientais, que nos colocam cada vez mais perto da nossa fauna”, destacou o pesquisador.
Estudo de campo em Rio Claro
A escolha do município de Rio Claro, no sul fluminense, para as coletas de campo deve-se ao histórico epidemiológico da região, que registrou o primeiro caso de hantavirose do estado em 2015. O trabalho de campo incluiu a captura de pequenos mamíferos silvestres, como as espécies Akodon cursore e Oligoryzomys nigripes, reconhecidas como potenciais reservatórios de vírus.
Renata Oliveira, chefe do Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses, ressaltou que a região é estratégica por sua proximidade com o estado de São Paulo, onde já houve diagnóstico de febre hemorrágica pelo vírus Sabiá. Com o uso de equipamentos portáteis adquiridos pelo projeto, os cientistas agora podem realizar análises genéticas preliminares ainda durante o trabalho de campo, acelerando o tempo de resposta em caso de surtos.
Fortalecimento de redes internacionais em Brasília
Além das atividades laboratoriais no Rio de Janeiro, representantes da Fiocruz participaram de um encontro de parceiros científicos em Brasília, realizado de 3 a 5 de fevereiro. O evento reuniu diversas instituições, incluindo o Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), para discutir o fortalecimento de políticas de prevenção.
O diretor da UK-PHRST, Edmund Newman, classificou a reunião como produtiva para a construção de caminhos sustentáveis na gestão de emergências. No mesmo sentido, o coordenador de Relações Internacionais do IOC, Carlos Eduardo Rocha, afirmou que a cooperação contribui para formar redes institucionais que podem atuar de forma coordenada frente a futuras ameaças globais à saúde. A expectativa dos cientistas é que os resultados detalhados das análises de bioinformática sejam apresentados até o mês de março.













