A investigação da Polícia Federal sobre o Banco Master identificou contratos milionários, propostas envolvendo aeronaves, experiências de luxo e despesas de viagens internacionais que teriam sido oferecidos por Daniel Vorcaro ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, e pessoas de sua família. Os fatos, ocorridos principalmente entre 2023 e 2025, foram descritos em documentos reunidos pela PF durante a apuração sobre as relações do empresário.
Um dos principais pontos investigados envolve o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Segundo a PF, um contrato firmado com empresas relacionadas a Vorcaro previa 36 pagamentos mensais de R$ 3 milhões líquidos. Considerando os tributos previstos, cada parcela chegava a R$ 3.646.529,77.
A investigação também identificou o nome “Ministro Alexandre de Moraes” nos metadados de duas versões da minuta desse contrato. Segundo a PF, a primeira versão foi encaminhada por Viviane a Vorcaro em 11 de janeiro de 2024 e registrava uma última modificação atribuída a esse usuário na mesma data. A versão final, enviada em 17 de janeiro, também apresentava registro semelhante, com alteração indicada em 15 de janeiro.
Os metadados, entretanto, constituem um indício técnico sobre o usuário associado à edição do arquivo e, isoladamente, não permitem afirmar quem estava fisicamente utilizando o computador ou quais mudanças foram feitas.
O contrato foi assinado em 23 de janeiro de 2024 por Daniel Vorcaro e Ângelo Antônio Ribeiro da Silva.
Transferências chegaram a R$ 13,6 milhões
Entre fevereiro de 2024 e outubro de 2025, a PF encontrou quatro comprovantes de pagamentos destinados ao escritório de Viviane. As transferências identificadas, no valor individual de R$ 3.422.268,14 após descontos, totalizaram aproximadamente R$ 13,6 milhões.
Mensagens analisadas pelos investigadores indicam que Vorcaro tratava os pagamentos ao escritório como prioridade. Em uma conversa de março de 2024, o empresário teria classificado o repasse como “o pagamento mais importante” e afirmado que não poderia haver atraso.
A investigação também encontrou um segundo contrato de honorários, com previsão de remuneração de até R$ 50 milhões líquidos ao longo de 36 meses, a título de pró-labore.
O documento previa que os valores poderiam ser pagos pela Viking Participações, empresa da qual Vorcaro é sócio, por transferência bancária ou mediante a entrega de bens, imóveis, móveis ou serviços.
Uma das propostas analisadas pela PF previa que R$ 40 milhões fossem quitados com cotas de duas aeronaves: um jato Legacy 650 e um helicóptero EC 155 B1, da Airbus Helicopters. Os R$ 10 milhões restantes seriam destinados ao reembolso de despesas relacionadas à utilização das aeronaves.
Em uma conversa reproduzida no relatório, Marcos da Mata, sócio de Vorcaro, perguntou a Viviane se os envolvidos estavam satisfeitos com a utilização das cotas. Ela respondeu afirmativamente.
Após a divulgação das informações, o escritório Barci de Moraes afirmou, em nota, que não assinou esse segundo contrato, não aceitou seus termos e, portanto, não recebeu cotas de aeronaves ou outros ativos previstos na proposta.
Recepção de luxo em Campos do Jordão
A PF também descreveu uma experiência oferecida por Vorcaro em dezembro de 2023, no Six Senses Botanique, em Campos do Jordão (SP).
Segundo os investigadores, o empresário organizou uma recepção para uma comitiva relacionada nas mensagens a “Alex”. A programação incluía almoço, chef particular, passeios a cavalo e atendimento de funcionários ligados a Vorcaro.
O planejamento previa nove convidados e quatro seguranças. Em uma mensagem, o empresário orientou que o encontro tivesse uma “experiência completa” para convidados considerados de alto nível.
Viagem e evento em Londres
Outro episódio investigado envolve a participação de Moraes no I Fórum Jurídico Londres Brasil de Ideias, realizado entre 24 e 27 de abril de 2024.
Conforme o material reunido pela PF, despesas relacionadas à viagem seriam custeadas. Mensagens também indicam que Moraes teria participado de discussões relacionadas a convidados e à programação do evento.
Em 28 de março de 2024, uma mensagem atribuída ao ministro foi enviada ao ministro Gilmar Mendes com um convite para o fórum. O texto mencionava que a estadia poderia se estender até 28 de abril e citava o Banco Master entre os organizadores.
A estrutura destinada às autoridades incluía veículos Mercedes-Benz S-Class com motoristas para um grupo restrito de participantes classificados como VIPs. Entre os nomes citados estavam Alexandre de Moraes e o ministro Dias Toffoli.
A investigação ainda menciona a segunda edição do evento, prevista para 2025, mas que não chegou a ser realizada. Em abril daquele ano, uma funcionária de marketing informou a Vorcaro que um assessor de Moraes havia entrado em contato para tratar da emissão de passagem aérea. Segundo o relatório, o empresário respondeu autorizando o procedimento.
O conjunto das informações integra a investigação da Polícia Federal sobre as relações de Daniel Vorcaro e empresas ligadas ao Banco Master com autoridades e outros envolvidos.
Com informações: G1













