PolíticaSenado avalia criar "OAB da Medicina" após dados do Enamed

Senado avalia criar “OAB da Medicina” após dados do Enamed

A baixa performance de cursos de medicina no Brasil reacendeu o debate legislativo sobre a fiscalização profissional. Segundo informações da Agência Senado, parlamentares analisam a criação do Exame Nacional de Proficiência em Medicina (Profimed), que passaria a ser uma etapa obrigatória para que o recém-formado obtenha o registro nos conselhos regionais.

A proposta (PL 2.294/2024), de autoria do senador Astronauta Marcos Pontes (PL-SP), surge em um momento crítico: os resultados consolidados do Ministério da Educação (MEC), divulgados em janeiro de 2026, revelaram que 32% dos cursos avaliados pelo Enamed tiveram desempenho insatisfatório. Atualmente, o texto aguarda votação na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado.

Diferenças entre o modelo atual e a proposta do Profimed

Diferente do Enamed, aplicado pelo Inep e pela Ebserh, o Profimed funcionaria como uma barreira de entrada no mercado de trabalho, similar ao exame da OAB para advogados. Enquanto o Enamed é uma ferramenta de diagnóstico e avaliação acadêmica, o Profimed condiciona o direito de exercer a profissão à aprovação em um teste nacional.

O senador Dr. Hiran (PP-RR), relator do projeto, classifica a iniciativa como a mais importante do século para a categoria. Para ele, o país enfrenta uma “proliferação desenfreada e mercantilista” de faculdades, o que coloca em risco a segurança dos pacientes. “Vivemos uma crise perigosa de fragilidade na formação do médico brasileiro”, alertou o parlamentar.

O impasse político e institucional

Apesar do apoio de entidades médicas, o projeto enfrenta resistência. Senadores como Rogério Carvalho (PT-SE) e Zenaide Maia (PSD-RN) questionam a centralização do exame no Conselho Federal de Medicina (CFM). Para os críticos, o MEC não pode ter apenas papel consultivo em um processo de avaliação educacional.

Em debates realizados no fim de 2025, Carvalho defendeu que o Ministério da Saúde e o MEC devem ser os protagonistas na definição do conteúdo e rigor das provas, criticando a possibilidade de o CFM contratar empresas terceirizadas para a aplicação do exame. O impasse levou ao adiamento da votação após um pedido de vista.

Radiografia do ensino médico no Brasil

Os dados que sustentam a urgência do debate mostram um cenário heterogêneo. Dos 351 cursos avaliados pelo Enamed, quase 100 não atingiram a nota mínima. A análise por tipo de instituição revela disparidades profundas: enquanto 86,6% dos alunos de universidades estaduais foram considerados proficientes, esse número cai para 49,7% nas municipais e 57,2% nas instituições privadas com fins lucrativos.

O ministro da Educação, Camilo Santana, reforçou que o foco do governo é o diagnóstico e a supervisão. Cursos com desempenho crítico já sofrem sanções, como a suspensão de novos ingressos e o bloqueio de participação no Fies.

Posicionamento do setor e próximos passos

O CFM já solicitou ao MEC os microdados das avaliações e avalia utilizar os resultados do Enamed como critério para o registro profissional, enquanto o Profimed não é aprovado. Por outro lado, a Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) levantou questionamentos sobre possíveis divergências nos dados apresentados pelo Inep, sugerindo cautela na interpretação das métricas.

Caso o projeto de lei seja aprovado na CAS em turno suplementar, ele seguirá para análise na Câmara dos Deputados.

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