O Sistema FIERGS alertou, nesta semana em Brasília, que as propostas de redução da jornada de trabalho podem comprometer a competitividade industrial e o nível de empregos no Rio Grande do Sul. Segundo a federação, a transição para modelos de 40 ou 36 horas semanais, incluindo a semana de quatro dias sem redução salarial, eleva os custos produtivos em um cenário de baixa produtividade nacional e de recuperação econômica após as enchentes de 2024. A entidade defende que a medida pressiona a economia gaúcha ao distribuir a mesma remuneração por um número menor de horas trabalhadas.
O presidente do Sistema FIERGS, Claudio Bier, debateu o tema junto à Confederação Nacional da Indústria (CNI) e ressaltou que o setor produtivo gaúcho já enfrenta dificuldades severas. Além dos juros elevados e do cenário externo adverso, Bier destacou o “apagão” de mão de obra qualificada e os prejuízos decorrentes dos desastres climáticos recentes como fatores que agravam a situação.
Impacto nos custos e na geração de empregos
Para a FIERGS, a redução compulsória da carga horária resulta em um aumento automático do custo do trabalho. “A situação é bastante delicada. Os industriais precisam lidar com juros elevados e um cenário externo adverso. Com o aumento do custo da mão de obra, haverá impacto na geração de renda, nas decisões de contratação e nos investimentos”, afirma Claudio Bier. O presidente pondera ainda que a legislação atual já oferece flexibilidade, permitindo a compensação de horários e a redução de jornada por meio de acordos e convenções coletivas entre empresas e sindicatos.
Dados da Unidade de Estudos Econômicos do Sistema FIERGS reforçam a abrangência do tema no estado. Conforme o levantamento, 67% dos trabalhadores formais gaúchos possuem jornada entre 41 e 44 horas semanais. No setor industrial, esse índice sobe para 91,7%, chegando a 92,3% na indústria de transformação, segmento que utiliza mão de obra de forma intensiva e seria o mais afetado pelo aumento direto nos custos de fabricação.
Descompasso da produtividade brasileira
A federação aponta que a discussão sobre a redução de horas esbarra na estagnação da produtividade no Brasil. De acordo com o estudo da FIERGS, o rendimento de um trabalhador brasileiro equivale a apenas 25% do alcançado por um trabalhador norte-americano. Enquanto economias emergentes como China e Índia registraram crescimentos anuais de produtividade de 8% e 5,1%, respectivamente, entre 1990 e 2024, o Brasil avançou apenas 0,9% ao ano no mesmo período.
Experiências internacionais e sustentabilidade
O estudo da FIERGS destaca que países que reduziram a jornada de forma sustentável o fizeram amparados em avanços tecnológicos e educacionais. A Coreia do Sul, por exemplo, reduziu sua carga horária em um período de crescimento de produtividade de 4,2% ao ano. Em contrapartida, a experiência da França, que reduziu a jornada de 39 para 35 horas, é citada como um alerta: o país enfrentou aumento de custos, perda de competitividade e desaceleração do crescimento produtivo.
No entendimento da FIERGS, para que o Brasil possa discutir a redução da jornada sem gerar inflação ou desemprego, é fundamental que o país apresente primeiro um aumento consistente e robusto em sua capacidade de produção. Sem esse equilíbrio, a federação prevê que o aumento dos custos será repassado aos preços dos produtos, impactando o consumo de toda a sociedade.













