Especialistas em tecnologia e lideranças empresariais debateram o impacto real da inteligência artificial (IA) na manufatura durante um evento preparatório para a Hannover Messe, na Alemanha, nesta semana, com o objetivo de analisar por que a maioria das iniciativas do setor ainda não gera retorno financeiro imediato. Segundo informações da Agência Brasil, o debate evidenciou que, embora o entusiasmo com a tecnologia seja elevado, a aplicação prática ainda enfrenta obstáculos para se transformar em produtividade e resultados econômicos tangíveis nas grandes corporações.
O desafio do retorno econômico na inteligência artificial
Apesar da expectativa global, a inteligência artificial ainda não se consolidou como um motor primordial de resultados financeiros para as empresas que a adotam. Norbert Jung, CEO da Bosch Connected Industry, afirmou que o setor vive um momento de forte empolgação que nem sempre se traduz em lucros. “Temos esse grande hype, essa grande esperança de que a IA possa ajudar a resolver muitas das nossas questões, mas ainda assim todo mundo está meio que na fase piloto. Noventa e cinco por cento dos projetos de IA não entregam valor econômico hoje”, declarou o executivo durante o painel.
De acordo com Jung, a dificuldade reside no gerenciamento do excesso de dados, que não necessariamente resulta em inteligência estratégica. Essa percepção é corroborada por um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), intitulado O Estado da IA nos Negócios em 2025. A pesquisa aponta que, mesmo com investimentos empresariais em IA generativa somando entre US$ 30 bilhões e US$ 40 bilhões, a grande maioria das organizações ainda apresenta retorno nulo sobre esses aportes.
Cointeligência como solução para a manufatura
Para superar o cenário de estagnação nos projetos piloto, o diretor da Bosch defende que o caminho para agregar valor reside na integração entre a tecnologia e a experiência profissional. “A resposta está em trazer IA, máquinas e humanos juntos em uma forma de cointeligência na manufatura”, explicou Jung, ressaltando que a empresa já trabalha na industrialização da IA generativa para otimizar processos internos.
Integração entre robótica e espaços industriais
O avanço da chamada “IA física” também foi pauta no encontro. Sven Parusel, chefe de pesquisa da Agile Robots, observou que a tecnologia está deixando as telas de computadores para operar diretamente nos espaços de produção. “Estamos vendo a IA sair das telas e entrar nos espaços de manufatura, especialmente quando falamos de IA física, trazendo robôs e máquinas físicas junto com as capacidades de IA”, disse Parusel.
A empresa alemã apresentou um sistema de montagem de caixas de câmbio que utiliza dois braços robóticos controlados por algoritmos de visão computacional. Segundo Parusel, a utilização da IA para controle e detecção de objetos já demonstra benefícios práticos, como uma produção mais ágil, flexível e de configuração simplificada em comparação aos métodos tradicionais.
Protagonismo brasileiro e cooperação internacional
A edição deste ano da Hannover Messe, que ocorre de 20 a 24 de abril, terá o Brasil como país homenageado. O evento contará com a presença confirmada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do chanceler alemão, Friedrich Merz. Com uma delegação de 300 empresas e 140 expositores coordenados pela ApexBrasil, o país busca se posicionar como um fornecedor relevante de soluções tecnológicas e de energia limpa.
Márcia Nejaim, representante regional da ApexBrasil, destacou em entrevista à Agência Brasil que o país possui mão de obra qualificada e empresas de ponta capazes de competir globalmente no desenvolvimento de IA. “A gente tem total condições, assim como a gente já, inclusive, estabeleceu tendência em uso de outras tecnologias em um passado muito lá atrás”, afirmou Nejaim, citando instituições como o Instituto Eldorado e as empresas Fu2re e Stefanini como exemplos da capacidade técnica nacional que será apresentada na feira alemã.












