Quase 2 milhões de pessoas trabalhavam por meio de plataformas digitais de serviços no Brasil em 2025, segundo levantamento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (4). O grupo representava 1,9% dos 102,4 milhões de brasileiros ocupados, e os dados mostram jornadas mais longas e rendimento por hora inferior ao de trabalhadores que não utilizavam aplicativos.
Do total de 1,8 milhão de trabalhadores plataformizados, 1,805 milhão utilizavam os aplicativos como atividade principal. Outros 182 mil recorriam às plataformas em um trabalho secundário, enquanto 28 mil utilizavam esse tipo de ferramenta tanto na ocupação principal quanto na segunda atividade.
Os aplicativos de transporte particular de passageiros, como os utilizados por motoristas, concentravam a maior parcela dos trabalhadores, com 58,9%, cerca de 1,2 milhão de pessoas. Na sequência aparecem as plataformas de entrega, responsáveis por 29,9% do total.
Também foram considerados aplicativos que intermediam serviços gerais e profissionais, como faxinas, cuidados pessoais, reformas, pequenos reparos, tradução, redação, programação, design, serviços jurídicos e consultas on-line.
Número de trabalhadores cresce 36,8% em três anos
Considerando apenas a atividade principal, o número de trabalhadores que utilizavam plataformas digitais passou de 1,319 milhão em 2022 para 1,805 milhão em 2025, aumento de 36,8%. Na comparação entre 2024 e 2025, o crescimento foi de 9,1%.
O avanço foi ainda maior entre profissionais que utilizavam plataformas de serviços gerais. O grupo cresceu 55,4% desde 2022, passando de 193 mil para aproximadamente 300 mil pessoas.
Entre motoristas de aplicativos de transporte particular, a alta foi de 37,8% no período. Já o número de trabalhadores ligados a plataformas de entrega aumentou 19,3%.
Homens são maioria
O levantamento aponta forte predominância masculina entre os trabalhadores de plataformas. Em 2025, 84,4% eram homens e 15,6% mulheres. Entre os demais trabalhadores do setor privado, a participação feminina chegava a 41,8%.
A faixa de 25 a 39 anos reunia 47% dos trabalhadores plataformizados. A maioria também trabalhava por conta própria: 86,8% estavam nessa condição, enquanto apenas 4,5% tinham carteira assinada.
Em relação à escolaridade, os trabalhadores de plataformas estavam mais concentrados nos níveis intermediários de instrução. Apenas 8,3% não tinham instrução ou possuíam o ensino fundamental incompleto, percentual que chegava a 20,3% entre os trabalhadores que não utilizavam plataformas.
Renda mensal é semelhante, mas jornada é maior
Apesar de os rendimentos mensais médios serem praticamente iguais, a diferença aparece quando são consideradas as horas trabalhadas.
Em 2025, os trabalhadores que utilizavam plataformas receberam, em média, R$ 3.147 por mês. Entre os que não trabalhavam por aplicativos, a média foi de R$ 3.148.
A jornada semanal, entretanto, foi maior entre os plataformizados: 44,7 horas, contra 39,3 horas dos demais trabalhadores do setor privado.
Por hora trabalhada, a diferença também foi desfavorável aos trabalhadores de aplicativos. A média foi de R$ 16,20, enquanto os demais receberam R$ 18,40 por hora, uma diferença de aproximadamente 12%.
A evolução dos rendimentos também foi desigual. De 2022 a 2025, o rendimento dos trabalhadores por aplicativos aumentou apenas 1%, enquanto entre os demais trabalhadores a alta chegou a 10,6%.
Dependência de uma única plataforma preocupa
Pela primeira vez, o IBGE investigou também a frequência de utilização das plataformas e a quantidade de aplicativos usados pelos trabalhadores.
Dos 1,8 milhão que utilizavam plataformas na atividade principal, 62,7%, ou cerca de 1,1 milhão, trabalhavam exclusivamente por meio delas. Outros 21,6% utilizavam as plataformas na maior parte do trabalho, enquanto 15,7% realizavam seus serviços principalmente por outros meios.
A maioria também estava concentrada em apenas um aplicativo. Cerca de 62,5% utilizavam uma única plataforma, 30% trabalhavam com duas e 7,5% utilizavam três ou mais.
Ao cruzar essas informações, o IBGE identificou que 38,8%, equivalente a 701 mil trabalhadores, atuavam exclusivamente por plataformas e utilizavam somente um aplicativo.
Essa dependência reduz as alternativas disponíveis caso ocorram mudanças nas regras das empresas ou problemas relacionados às contas dos trabalhadores.
Plataformas influenciam valores e condições de trabalho
Embora a maior parte dos trabalhadores seja classificada como autônoma, os dados indicam que as plataformas exercem influência sobre diferentes aspectos da atividade.
Entre motoristas de transporte particular, 80,2% afirmaram que a plataforma determinava totalmente o valor recebido por cada trabalho. Entre entregadores, esse percentual era de 78,3%. No caso dos taxistas que utilizavam aplicativos, chegava a 73,5%.
As plataformas também podiam definir os clientes atendidos. Isso ocorria totalmente para 70,8% dos entregadores e 60,8% dos motoristas de transporte particular.
O recebimento dos pagamentos também era determinado integralmente pela plataforma para 71,3% dos entregadores e 60,6% dos motoristas de aplicativos.
Flexibilidade é principal motivo
A possibilidade de ter maior flexibilidade foi apontada como o principal motivo para trabalhar por meio das plataformas. Entre aqueles que utilizavam aplicativos na atividade principal, 26,8% deram essa resposta.
Outros 24,6% afirmaram que não conseguiram encontrar outro trabalho. Para 20,8%, o rendimento era maior do que em outras alternativas disponíveis, enquanto 16,6% utilizavam as plataformas para complementar a renda.
No caso de quem utilizava aplicativos em uma segunda atividade, o complemento de renda foi apontado por 87,7% dos trabalhadores.
Motoristas de aplicativos trabalham mais horas
Em 2025, o Brasil tinha 1,974 milhão de condutores de automóveis na atividade principal. Desse total, 905 mil, ou 45,9%, trabalhavam por meio de aplicativos.
O rendimento médio mensal desses motoristas era de R$ 2.873, contra R$ 2.805 entre os que não utilizavam plataformas. Apesar da diferença de 2,4% na renda mensal, a jornada dos motoristas de aplicativo era maior: 45,9 horas por semana, contra 40,4 horas.
Com isso, o rendimento por hora era menor entre os plataformizados: R$ 14,40, contra R$ 16 dos demais motoristas.
A contribuição previdenciária também apresentava diferença. Apenas 25,5% dos motoristas de aplicativos contribuíam para a Previdência, enquanto o percentual entre os demais chegava a 59,2%.
Número de motociclistas por aplicativos quase dobra
Entre os 1,179 milhão de motociclistas que trabalhavam em sua atividade principal em 2025, 405 mil, ou 34,4%, utilizavam aplicativos.
O número cresceu 91,9% desde 2022, enquanto o total de motociclistas aumentou 22,6% no mesmo período.
Nesse grupo, a renda mensal média dos trabalhadores plataformizados era maior: R$ 2.221, contra R$ 1.802 dos demais. O rendimento por hora também era superior, de R$ 11,40 contra R$ 10,10.
Por outro lado, somente 19,4% dos motociclistas que trabalhavam por aplicativos contribuíam para a Previdência. Entre os não plataformizados, o índice era de 37,1%.
Comércio eletrônico tem perfil diferente
A PNAD também analisou separadamente pessoas que trabalhavam por conta própria no comércio e utilizavam plataformas de comércio eletrônico para encontrar clientes e vender produtos.
Em 2025, havia aproximadamente 5 milhões de pessoas nessa situação. Desse total, 210 mil, ou 4,2%, utilizavam plataformas digitais para realizar as vendas.
O perfil desse grupo era diferente do observado entre os trabalhadores de aplicativos de serviços. As mulheres eram maioria, representando 58,1%, e havia maior presença de pessoas mais jovens e com maior escolaridade.
A formalização também era maior entre esses comerciantes: 64,6% eram formais, enquanto entre aqueles que não utilizavam plataformas a informalidade chegava a 56,1%.
O rendimento médio também era superior entre os comerciantes que utilizavam plataformas de comércio eletrônico, chegando a 44,4% a mais do que entre os que não utilizavam essas ferramentas. Por hora trabalhada, a diferença era de 38,4%.
Quase um terço desses comerciantes realizava as vendas exclusivamente por meio das plataformas digitais.













