A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) obteve, em março deste ano, nos Estados Unidos, a patente de um método de tratamento com o composto DAQ para ampliar as alternativas contra a malária, especialmente em casos resistentes aos medicamentos tradicionais. A concessão foi feita pelo United States Patent and Trademark Office (USPTO) e envolve pesquisadores do Instituto René Rachou, unidade da Fiocruz em Minas Gerais.
Segundo informações da Agência Brasil, o método utiliza o composto conhecido como DAQ, que apresentou capacidade de agir contra cepas resistentes do Plasmodium falciparum, parasita associado às formas mais graves da doença. O diferencial apontado pelos pesquisadores está na possibilidade de superar mecanismos de resistência desenvolvidos pelo microrganismo.
Composto foi retomado em novos estudos
Embora o DAQ não seja uma molécula inédita, sua atividade antimalárica já havia sido descrita na década de 1960. O grupo coordenado pela pesquisadora Antoniana Krettli retomou os estudos com abordagens atuais da química e da biologia molecular, buscando compreender melhor o potencial terapêutico do composto.
“Essa molécula já tinha sido descrita como promissora, mas acabou sendo deixada de lado. O nosso grupo retomou esse estudo e mostrou um mecanismo único de superar mecanismos de resistência desenvolvidos pelo parasita, ao identificar uma característica estrutural decisiva: a presença de uma ligação tripla na cadeia química”, explica Wilian Cortopassi, pesquisador colaborador da Fiocruz.
O DAQ atua de forma semelhante à cloroquina. O composto interfere em um processo essencial para a sobrevivência do parasita. Durante a digestão da hemoglobina humana, o microrganismo produz substâncias tóxicas que normalmente consegue neutralizar. Com a ação do DAQ, esse mecanismo de defesa é bloqueado, levando à morte do parasita.
Resultados também indicam ação contra Plasmodium vivax
Os estudos apontaram ação rápida do composto nas fases iniciais da infecção. Também indicaram eficácia contra cepas sensíveis e resistentes do Plasmodium falciparum.
Os pesquisadores ainda identificaram resultados considerados promissores contra o Plasmodium vivax, responsável pela maior parte dos casos de malária registrados no Brasil. Outro ponto destacado é o baixo custo potencial da molécula, fator importante para países de baixa e média renda, onde a doença continua endêmica.
Pesquisa reúne instituições parceiras
As pesquisas contaram com colaboração de instituições como a University of California San Francisco (UCSF), a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Novos estudos seguem em andamento em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Apesar dos resultados, o desenvolvimento do DAQ como medicamento ainda depende de outras etapas. Entre elas estão testes de toxicidade, definição de doses seguras e eficazes e desenvolvimento de uma formulação farmacêutica adequada.
A patente concedida em março tem validade até 5 de setembro de 2041. Para Antoniana Krettli, a estrutura da Fiocruz pode contribuir para acelerar novas fases de desenvolvimento do tratamento.
“A instituição tem forte atuação na Amazônia, com diagnóstico e acompanhamento de pacientes, além de experiência em testes clínicos. Isso facilita parcerias e o avanço de novos medicamentos”, afirma.
Resistência do parasita preocupa pesquisadores
Os pesquisadores alertam que, embora existam tratamentos eficazes atualmente, o parasita da malária continua evoluindo e desenvolvendo resistência. Por isso, defendem que novas alternativas terapêuticas sejam desenvolvidas antes que ocorra uma possível redução na eficácia dos medicamentos disponíveis.
A expectativa é que o avanço dos estudos ajude a ampliar as opções de tratamento no futuro, principalmente em regiões onde a malária permanece como um problema de saúde pública.











